quarta-feira, 16 de setembro de 2009

QUEM DÁ CHOQUE NO ESTADO?

Emails trocados entre os dias 7 e 9 de setembro.

texto do site overmundo
abraço
até amanhã na Praça Afonso Pena.
bjos, Diego Dantas

Choque de Ordem na Visão do Mate Com Angu

É incrível como muitas vezes a gente vai aceitando passivamente os discursos ventilados nos grandes meios de comunicação, difundidos como quem não quer nada e que de uma hora pra outra, pronto, viram ações legitimadas pela chamada opinião pública.
O mais recente desses discursos é o tal choque de ordem, propalado aos quatro ventos como a solução para todos os problemas e elevado a novo mantra dos tecnocratas de plantão, aqueles mesmos que mais atrapalham do que ajudam.

Parece papo de perseguição, conspiração e coisa e tal – e talvez seja mesmo! O fato é que o Estado do Rio vive um momento de adesão à tal política de choque de ordem, mesmo quando ninguém entenda exatamente de que ordem estão falando.

O Mate Com Angu vai falar disso, metendo o dedo de com força nessa discussão.

Primeiramente esse discurso em voga não é exatamente novo na história política do país. Foi com o discurso de choque de ordem, de civilização, de acabar com a bagunça e nomes afins que o país entrou em grandes roubadas ao longo de sua história. Haja vista o bota-abaixo do Pereira Passos, as pregações de Carlos Lacerda, a vassoura de Jânio Quadros, o golpe de 64, entre outros, que parecem revelar sempre a mesma pedra no sapato dos encastelados no poder: o que fazer com o povo, com aquela gente miscigenada e amontoada nos morros e palafitas das cidades?

Acredite: esse discurso saneador, de assepsia, de limpeza, representa um dos mais perigosos discursos em tempos conturbados como o nosso. Justamente porque ele legitima práticas totalmente condenáveis de exceção, perseguição, rotulação, criminalização.

Seja na cidade do Rio, em Duque de Caxias, em Macaé etc, o discurso do choque de ordem bota abaixo sem discussão a história, a cultura, a vida das pessoas, antes que se possa argumentar com a lógica, com o bom senso. Exatamente o que fazia a ideologia do nazi-fascismo. Parece exagero, mas esse discurso – e sua prática sumária – é uma prima de primeiro grau dos linchamentos de mendigos, da queima de índios nos pontos de ônibus, das surras em prostitutas na madrugada. Tudo em nome da “ordem”, da “limpeza” das ruas, do “ordenamento”, da “organização”, da assepsia, do “bom visual”.

Por muito menos a sociedade já viu abusos desumanos decorridos disso. A ditadura militar, por exemplo, fez esse quadro recrudescer de maneira dramática: enquanto a classe média curtia o consumo nas ondas do milagre econômico as cidades aprofundavam uma fenda que hoje chega às raias do inconciliável... Só um gênio como Bezerra da Silva pra testemunhar e relatar a vida da população por volta de 70 e 80...

Quando Nelson Pereira dos Santos filmou Rio 40 Graus, em 55, descortinou-se um Rio de Janeiro que melava o culto cartão-postal do Redentor, da Princesinha do Mar, do Pão de Açúcar, do Cassino da Urca, dos famosos bailes onde as pessoas curtiam felizes as delícias proporcionadas pela geografia generosa da Cidade Maravilhosa... Hoje aquele Rio mostrado pela primeira vez na tela tomou conta e parece muito maior e mais “perigoso”. Receita: criar mecanismos para criminalizar o povo. Limpar as ruas. Ordenar a Zona Sul do Rio. Choque de Ordem neles.
Porque afinal de contas, essa política também é extremamente covarde: primeiro baixamos o cacete nos informais, nos malditos camelôs, nos biscateiros ilegais que atravancam o progresso do país... Depois, se der tempo, podemos desconcentrar a renda, fazer reforma agrária, prender os corruptos e fazê-los devolver o dinheiro, essas coisas. Depois. Agora não. O valente só é valente em relação ao mais fraco. Qualé, choque?...

E pior do que a ideologia posta em prática é o silêncio das camadas que poderiam protestar, intervir, fazer barulho. Não falamos nem do silêncio e da conivência da grande imprensa porque esta já está caindo até no ridículo, como é o caso da revista Veja, por exemplo. É muito perigoso que esse discurso vá contaminando a sociedade e ninguém revide.

O velho Heráclito de Éfeso há 2.500 anos atrás já dizia: a harmonia oculta é superior à aparente. Sábio, profundo isso. E agora é o momento de ousar novas ordens, aprender com a criatividade. O Brasil é de fato o criador da Nova Ordem Mundial, filha da Cultura, do Improviso, da Convivência, da Música como ordenação. É preciso um novo sentido para ORDEM. MEDRO. MDORE. EDROM. MORDE. DORME.

Enquanto os políticos que estão aí oscilam ou entre o banditismo explícito saqueador dos cofres públicos ou o salto alto da geração Barra da Tijuca, estamos lascados. Mas somos uma minoria barulhenta e não estamos sós.

Sem o velho vício de falar em nome do povo, o Mate Com Agu propõe hoje uma reflexão sobre que modelo de cidade queremos. Algumas coisas já sabemos: com distribuição de renda e com mais imaginação. Mais arte e mais comida no prato. Mais cidadania e mais sexo. Mais respeito e mais diversão. A ordem é a desordem de ser humano.

Resumindo:
1) choque de ordem é o caralho!
2) E QUEM DÁ CHOQUE NO ESTADO?


Abraços chocantes,
Cineclube Mate Com Angu
7 anos desafinando o coro dos contentes


[texto do programa da sessão Choque de Desordem, realizada no dia 25/03/2009]

8 comentários:

  1. Oi Diego! Oi para todos! Como vão?
    Fantástico o texto! Que interessante, você conhece o Heraldo? Mais conhecido como HB? Nos conhecemos! Legal! Aliás estava pensando na sexta-feira sobre uma performance cidadã. Sabe quando o motorista deixa você passar e você o responde com um sorriso de muito obrigado, abre a porta para alguém entrar com as mãos cheias e esta pessoa passa e nem agradece, já parou pra pensar que na vida um simples gesto é o grande fator de mudança comportamental? Ou seja, desvelar as diferenças e as semelhanças através de um movimento transformador do gesto comportamental em artístico. É para refletir...
    Aliás peço desculpas ao grupo, pois amanhã não irei ao nosso compromisso, pois farei um exame e como preparação deste não posso ficar muitas horas de pé. Mas não faltarei aos outros.
    Entro em contato com vocês.
    Obrigada e um excelente dia amanhã!
    Suzana Miranda

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  2. aliás pudemos refletir hj realmente sobre choque d ordem, como essa operação vêm procedendo e marcando os discursos-corpos dos moradores de rua
    foi só conhecermos "SR IDUARDO" - com i mesmo!!! - (morador de rua, pça afonso pena) q ele nos contou q eduardo paes tentou levar seu carrinho-casa, seus únicos pertences. meu deus, as pessoas querem tirar o quê de onde já não tem??? E linda a história q ele nos contou da atitude que ele nomeou desprezível de seu amigo, também morador de rua que ganhou de present um casaco de um fiel de igreja e no dia seguinte o vendeu pra torrar em cachaça. É ... seu iduardo também nos ensinando sobre ética na rua, defendendo seus valores, posições e tomadas de decisões ... e terminou dizendo que deus anda se enganando, se equivocando ... tanta gente matando tanta gente... e nos informou notícia de jornal... é, mendigo informado, situado, que sabe o dia de hoje, dia 8 de setembro, e que na semana passada soube pelo jornal que irmã matou irmão lhe jogando dentro de um balde
    e é performance policial arrancar carrinho de mendigo à força??? A polícia acha que sim e que é uma performance necessária, de limpeza.
    e é performance artistas curiosos querendo colher material de pesquisa para "sua" arte??? às vezes o artista acha que sim.
    Vamos com calma. Esqueçamos os artistas e vejamos o que podemos trocar de verdade com as pessoas. Ninguém está à custa de ninguém. Colher material? Ninguém é cobaia de ninguém. Muita atenção e cuidado para todos nós. É o que desejo para nós. Mas acho que já estamos indo bem. Mas vamos pensar sempre em melhorar.

    carla stank

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  3. Queridos,

    Para mim, se é tempo de colheita ou não, depende pra onde se olha, depende se houve semeadura.

    Ao anunciar o choque de ordem o nosso prefeito, debruçou sobre uma maioria crente, uma possibilidade de melhora embora não tivéssemos claras as ações que levariam a ela e se essa seria para todos também. É fato que o Rio esteve abandonado nos últimos anos, não diferente foi no que se refere às questões urbanas.

    Por exemplo: o trânsito em colapso cada vez maior, as redes de escoamento insuficientes ou inoperantes, a segurança pública falha e equivocada e tantas outras questões. No caso dos ambulantes e moradores de rua, o que eu cri, no entanto, é que seria uma ação mais inteligente, mais humanitária, que levasse em conta não apenas a imagem das ruas vazias e teoricamente mais "civilizadas e limpas" com a retirada deles; mas a situação social em que estes trabalhadores e/ou moradores ficariam após o anunciado e desastroso choque.

    Já virou uma lamúria diária ou até um discurso banalizado, falar da crise econômica, do desemprego, de tantas pessoas que permanecem a viver à margem da sociedade. Com a fachada de melhorar a imagem da cidade, o que os comandados de nosso prefeito têm feito é um furto escrachado a muitas pessoas.

    Para colocar ordem na cidade, não basta agir como se faz em um cemitério ou em um quartel (até porque, no quartel, o soldo e o rancho estão garantidos). É preciso levar em conta as necessidades e possibilidades de sobrevivência digna dos que habitam o espaço público, muitas vezes por falta de outras opções.

    Não tenho notícias, ao menos por aqui na Zona Oeste e parte do Centro, que foi feito um mapeamento anterior por bairro para saber que ações deveriam ser adotadas, quem poderia continuar vendendo ou quem não poderia, onde poderiam estar e de que forma. O que noto, é que há um choque de ordem que deseja banir objetos, coisas, limpar o espaço. Não tenho observado, por exemplo, uma real preocupação com os que dormem nas ruas, contando que estes não estejam com seus carrinhos-casa, papelão-telhado, cozinha-lata, atrapalhando o "visual maravilhoso"; a estada está permitida! Pasmem! A ordem se estabelece na casca. Há uma preocupação com a estética retrógrada e não com a ética. São mazelas da nossa cidade que se repetem de formas diferentes pelos bairros. Mazelas que desastrosamente tentam varrer da paisagem. Tem sido mais fácil empurrar-nos para uma situação de crise social mais aguda, do que tratar com sabedoria.

    Essa pequena parcela observada por vcs na terça é um pouco do muito.

    Cabem aqui perguntas para que possamos refletir enquanto experienciadores destas ações em pesquisa: o que em nós move diante destas críticas à ação política e as constatações sociais? Que novas estratégias de pesquisa serão abertas para fazer-nos refletir, discutir e absorver essa "mão de obra"? Mais do que definir as zonas da cidade em que desejamos atuar é preciso responder por que, onde e o que desejamos transformar ou necessita de transformação?

    Faço aqui uma conexão ao que experienciaram como processo de pesquisa esta semana e repito o que ficou para mim como questões instigadoras: Pouco é muito? Qual é seu limite? É pra ler ou pra entender? Oh abre alas que eu quero passar?

    Como disse antes, se é tempo de colheita ou não, depende pra onde se olha:-) Boa semeadura, boa olhada:-) Bom processo cheio de instigações.

    Bjs com carinho,
    Renata Diniz

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  4. Bárbaro o texto da Renata.

    Aproveito o momento para relatar brevemente a experiência da visita a Vila Mimosa.
    Começo pelo início de tudo: Chegamos ao ponto marcado, Praça Afono Pena, observamos algumas maneiras de utilização daquele ambiente (um exercício interessantíssimo). Nos dividímos em dois grupos.

    1° Grupo - Se interessou por observar mais a praça e acabou optando por trocar experiências com moradores de rua. (eu não estava neste grupo)

    2° Grupo - (Diego, Lu Carnout, Lis, Vitor, Laura)Transitou pela região da Afonso Pena, observando arquitetura, instituições predominantes, ambulantes, vielas, ruas, avenidas, praças vivas, praças fantasmas, outdoors dentre outras coisas. Elegemos a Vila Mimosa na Praça da Bandeira como ponto final do nosso longo trajeto. Lá tivemos a oportunidade de perceber corporalmente a mudança de nossa postura em função da entrada num ambiente desconhecido (para nós, sendo redundante). Muito interessante a conformação do espaço, a união de instituições (educacional, jurídica, social) em favor de uma atividade '""ilegal""', dentre muitas outras coisas. A prostuição aparece em banners, roupas, no espaço, mas não é falada. Pelo menos não antes das 18h.
    Abordamos os responsáveis pelo espaço da FAETEC e da OAB junto com a AMOCAVIM (Associação de Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa) na VM de forma honesta, demonstramos interesse em realizar mais visitas e o possível interesse de realizar um evento no local. Pegamos contato da associação de moradores com o intuito de avisar e sermos respaudados no caso de realizamos nova visita como grupo no horário de maior atividade na VM.(que é diferente de 3 ou 4 pessoas aparecerem)
    Gostaria que todo grupo, ou dos que não estavam e tem interesse em trocar com esta experiência pudesse estar presente nos próximos momentos. Após ás 18h.
    Realmente acho que nossa próxima atividade deve ser a noite. (Independente do lugar)

    Bjos
    Diego Dantas

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  5. Realmente a VM deve ser mais interessante a noite!!!!, mas para isso teremos que ter um cuidado ou uma produçao atenta.
    Sugiro um contato com a "organizaçao" do lugar!,uma espécie de associaçao dos moradores....
    Acho que ir lá me empolgaria!!!
    E sobre o texto de Renata,somo ao trabalho de Camila:
    Quem é o bobo da corte?????
    bjs. Claudia Horta

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  6. Adorei o texto da Renata. Acredito que já estamos cheio de provocações, agora é hora de malhar! Os exercícios com a Camila hoje já apontou várias possibilidades concretas. Estou tentando achar a "Mesa Verde" do Kurt Joss, mas não tô achando. Vou continuar tentando, se alguém souber, envia pra galera.
    A Vila Mimosa foi e continua me empolgando muito, apesar de não ter ido na terça.
    Beijos e até amanhã!
    Rafael Tupynamba

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  7. Galera, eu tenho mesa verde em dvd em casa, mas é muito material.
    Então, segunda disponibilizarei uma cópia ao Tupi com intuito de que esta circule.
    Bjks! Victor

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