terça-feira, 15 de setembro de 2009

Victor D'Olive - Relatório Musica e Movimento

A percepção ativa das sonoridades manifestantes no universo das coisas e homens ao nosso redor permite-nos apreender o mundo como produção contínua de impressões que em forma de música tem potencial de articular a vida e colorir a dinâmica do corpo que dança, auxiliando-nos no árduo processo de compreensão das múltilplas relações que o sujeito mais do que potencializa, imprime no mundo. Todavia, este estado de imbricado vínculo entre o corpo e a sua essência musical que engendra estruturas de inúmeras luminosidades, qual calidoscópio, não se desenvolve na ausência de determinados estímulos, qual o silêncio e a necessidade do ato de escutar, que nos orientam a promoção de impressões não prescindíveis à validação deste conjunto poético, cooperando em nosso empreendimento criativo e, mormente, no aprofundamento de nossas questões relacionadas à rede de significações moduladas pela música e o movimento.
Esta rede de significações conquanto, em primeira instância, funcione como a organização de conjuntos sonoros, vibracionais e gestuais estruturados a partir de determinados arranjos simbólicos ou códigos compartilhados ou linguagens pode ser percebida em todas as coisas e manifestações do mundo; pois, mesmo que os músicos e bailarinos insistam em definir a categoria de suas produções como algo organizado por um conjunto harmonioso e propositor, podemos captá-las em todas as ambiências, e à medida que reconhecemos no caos, que engendra a continuidade e produção eterna do Infinito Universal, uma desordem em formato organizado – ainda que não por bipolaridades e dicotomias – encontramos na Natureza esta grandiosa proposta de harmonização e apreendemos a redimensionar as bases do fenômeno da percepção.
Certamente, o entendimento destas bases fenomenológicas não é facilitado a todos os seres pelo fato deste processo de assimilação se dar em camadas muito profundas e exigir um estado de distensão que se torna cada vez mais raro nos tempos hodiernos à medida que os homens procuram compartilhar de maneira contínua suas experiências – mesmo que ingênuas, tolas, desqualificadas ou nada interessantes – tornando este entendimento algo artificial, equivocado e superficial; ainda assim, contudo, persistimos na divulgação das impressões e sensações que nos orientam não só na formação de imagens sobre o casamento entre música e dança, mas também na edificação de palavras e remodelação de ações no âmbito social.
A necessidade de promover o silêncio caracteriza nossa própria sabedoria, pois, é a partir do que ouvimos, apreendemos e depreendemos com atenção ativa que podemos propor abordagens diferenciadas ou afins e desenvolver conteúdos que consideramos carentes; o silêncio é a articulação da Vida porquanto a sua presença funciona como orquestra da própria intimidade disponível aí em compreender a fluência de bastar-se; o silêncio é base para ciência, filosofia e religião e, portanto, para o entendimento dilatado do homem. Por isso Cage, em sua obra, propõe que ouçamos o silêncio e examinemos nosso comportamento individual ante sua presença, divulgando o homem e(m) seu potencial musical, gestual, vital, interrompendo o contexto no qual o material montado é montado e, por fim, apresentando o silêncio como antagonismo em equilíbrio, contraste em harmonia, força reguladora do logos, forma artesanal do ser no mundo.
A necessidade do ato de escutar, e isto faz-se importante apontar, não se cria apenas neste processo relacional entre música e dança mas também nas relações intrapessoais, interpessoais, intersocietárias; não há como entender o que o outro diz sem predispor-se a ouvi-lo; afinal, como diz Benjamin “quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido”. É aí que se estabelece a poética do encontro entre o compositor e sua obra e o ouvinte ou espectador e, igualmente, ente os homens em sociedade, uma poética esquecida e abandonada por muitos de nós. Por isso, no módulo III desenvolvemos uma pesquisa coreográfica em que o público se manifestava tecendo comentários sobre a obra em desenvolvimento.
Todos estes princípios formaram-se nas discussões e aulas do Seu Zé (José Eduardo Costa Silva) acerca dos mecanismos da apreciação e experimentação musical; nestes momentos – e aqui assumo o caráter de pessoa singular, pois acredito que este conjunto de percepções me pertence de maneira bem positiva – onde trabalhei o potencial analítico da escuta e elaborei reflexões entre música, corpo e sociedade pude perceber a existência de um entendimento debilitado incorporado em grande número de parceiros acerca da liderança. As pessoas nutrem um ideal de liderança cuja base consiste em sobrepor-se ao outro, submetendo a alteridade à submissão e a um estado que deflagra a existência de uma autoridade pautada na monovocalidade. Não acredito em liderança que não se paute em compartilhamento, na valoração dos homens, promovendo-os em parceiros, colaboradores agentes ativos de nossas necessidades e realizações, engendrando polivocalidades. Liderança em meu entendimento consiste em conciliações, em movimentar posturas ativas ante as insuficiências do grupo e criar proposições para que os sujeitos não se alienem numa rede de conhecimentos e informações, mas para que, sobretudo, eles trabalhem com esta rede; não é fomentar unanimidades, porcos enfileirados, mas homens pensadores e críticos e criativos e independentes, livres. Liderança não é exercitação de hegemonia, pois, segundo Carnoy “a hegemonia compreende as tentativas bem sucedidas da classe dominante (...) para impor sua visão de mundo como inteiramente abrangente e universal, e para moldar os interesses e as necessidades dos grupos subordinados. (...). Ela é plena de contradição e sujeita ao conflito” enquanto que a liderança é coerente e aberta ao diá-logo.
O perfil de liderança que percebo ser fomentado e interpretado no Projeto Ateliê é um perfil de simulacro onde as pessoas necessitam articular discursos menos para discutir e mais pela necessidade de aparecer, onde pesquisadores em formação deformam-se ante a indigência de criar menos pelo exercício da criação e mais pelo dever (grato dever), que de algum modo vejo transformado em árdua obrigação. E isto traz como conseqüência e efeito a decadência que transforma os pensamentos não em castelos que acolham de maneira generosa a idéia do próximo, mas em ruínas sombrias, egoístas, improdutivas validadas pela pobreza das aparências. Por isso, hoje existem muitos estudos e aventuras investigativas nos círculos da liderança, estas, entretanto se organizam muito menos (ou de forma alguma) para que os orgulhosos mandem melhor, e sim para que cada homem aprenda a reger suas relações a partir do sentimento fraterno da solidariedade, ouvindo o silêncio e dilatando a escuta.

Relatório Ateliê Coreográfico 2009
Módulo III – Música e Movimento
Victor D’Olive - 14 de agosto de 2009

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