TOQUE
Há três anos delimitei, olhar e corporeidade a cerca da percussão corporal- arte de produzir sonoridade percutida no próprio corpo, no entanto, ainda não havia estabelecido uma relação criativa desta linguagem em suas nuances próprias, pois, em favor de determinadas temáticas, era inclusa quase sempre como um instrumento musical.
O tema música e movimento do terceiro módulo do Ateliê Coreográfico convergiu com meu atual interesse para composição coreográfica, comportando o desenvolvimento de pesquisas de movimentos percussivos pré-concebidos, mas que até então, não haviam sido elaborados de maneira direta com a dança contemporânea. Foi uma oportunidade de fluir e permitir vir à tona conjugações e tendências da percussão corporal influenciada por algumas questões próprias a cerca da dança contemporânea e pelo conteúdo desenvolvido pelos professores do módulo.
Percussão corporal é como foi classificada a produção de gestos percussivos no próprio corpo, gerando sons com timbres corporais- estalos de dedos, batida de palmas, sapateado, percussão vocal, o som da palma da mão em diferentes partes do corpo (perna, peito, barriga, bochecha, nádega, etc.), percussões possibilitadas pela boca e/ou com a língua sem o uso das mãos, podem figurar alguns exemplos que estão presentes em nosso cotidiano, na expressão de diferentes culturas, nas danças e na arte mundial.
Nas salas de aulas de dança, o sapateado americano (Tap dance), proporcionou um contato mais freqüente e elaborado com a técnica corporal de som e movimento. Mas, presente em meu cotidiano popular, a percussão corporal foi também apresentada a partir das brincadeiras infantis que envolviam o canto e o contato percussivo com outras crianças- como adedanha, pirulito que bate-bate e din-din- castelo, que traziam uma atmosfera musical e de jogo. Assim, não se tratando de uma técnica apreendida dentro de sala de aula apenas, mas de uma relação observada e desenvolvida no dia-a-dia.
Por isso, acredito que o encadeamento cênico comportou-se com muita potência neste lugar mais coloquial, que beirava o gesto, onde a busca coreográfica tratou menos de uma rebuscada e emaranhada coreografia de dança percussiva, estava mais atenta às possibilidades despretensiosas que surgiram e que fizeram por vezes construir um diálogo cênico aberto e espontâneo a partir de jogos improvisados que convidavam a memória e a história de cada intérprete a uma cena que se propunha em desenvolver relações rítmicas sonoras ou não.
A composição intiltulada “TOQUE”, desenvolvida durante o terceiro módulo do ateliê Coreográfico e apresentada na mostra de finalização- Café Menu- em 03 de Julho deste ano, teve a percussão corporal como principal personagem, mas, transcendeu este fazer para dialogar a partir de seus princípios de som e movimento, proporcionando interagir com situações cotidianas, a linguagem verbal, a arte do sapateado americano de chinelos havaianas, o teatro, a música e a dança.
Grande parte do trabalho necessitou uma estrutura aberta- sendo esta uma presença primordial para nosso estado cênico e desenvolvimento tônico muscular, pois, não se tratava de estar interpretando algo e sim de criar atenção aos diálogos, colocando-se num estado atento e presente, que permitisse o entendimento de novas associações e diálogos, além do encadeamento do roteiro e dos momentos ancorados, dando noção e caminho para o texto coreográfico em sua curva de início, meio e fim.
Para mim foi um processo desgastante ao mesmo que prazeroso. O desgaste, resultado da busca pelo encadeamento das composições, pela construção de um texto cênico coerente, revelou-me as múltiplas possibilidades das informações a cerca dos materiais e percebendo mais e mais sensações e aceitando as múltiplas possibilidades de uma relação infinita que é o fazer criativo.
Prazeroso por envolver um somatório de informações especiais: primeiro por ter tido a oportunidade de desenvolvê-lo gradativamente, com auxílio dos amigos que compõe o projeto, tanto professores como os artistas do ateliê coreográfico, assim, me felicito por acreditar que o resultado não seja fruto de um processo isolado e egóico, por isso, permitiu ser compartilhado e compreendido por pessoas de histórias e opiniões diversas; segundo, o nascimento inusitado do duo com o Lucas, que surgiu de uma brincadeira durante as aulas, assim, tenho a impressão de um sincero diálogo livre de qualquer tendencialismo e muito generoso por expor nossas manias, rítmicas ou não; terceiro, por ter possibilitado um infinito prazer de reencontrar minha irmã como parceira criativa, uma relação vem sendo amadurecida desde a infância, que além de comungar de questões muito parecidas, me parece a cada vez, mais importante e diferenciada; por último, reafirmo que a pesquisa com a percussão corporal desperta-me muita curiosidade e motivação para criar relações com os movimentos do meu corpo, suas linguagens, contato com outras pessoas e até aprofundamento na nossa cultura, que não se limita a cidade ou país, mas a cultura humana de movimento e som.
Não tratando de nenhuma técnica específica, a dança contemporânea amplia e possibilita reelaborar o fazer da dança aliada ao imaginário, as individualidades e necessidades de quem se expressa. A partir da atenção aos princípios do movimento e dos eventos, tem possibilitado que cada vez mais consiga interagir linguagens que me auxiliam criar um discurso cênico autônomo, suscetível aos meus próprios fenômenos criativos e mais sensível para perceber os fenômenos da outras pessoas.
Munique Mattos - 4 de agosto de 2009

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