O terceiro módulo do Ateliê Coreográfico, Concerto Coreográfico: Parcerias entre música e dança, confesso que foi o módulo mais aguardado por mim, visto que a relação entre música e dança me acompanha há algum tempo. Então, tentarei aqui situar as questões referentes a este estudo, o qual existe há alguns anos, e ao mesmo tempo, descrever a importância que o espaço do projeto teve neste processo.
Durante minha estada no curso de graduação em dança da UFRJ, desenvolvi um enorme gosto pela criação coreográfica. Na universidade, tive a oportunidade de compor trabalhos autorais e apresentar em alguns teatros. Após um período longe de criação própria, percebi que a pesquisa iniciada na graduação não havia se esgotado, apenas tomou novas configurações. Assim, em um segundo momento, no curso de especialização em dança da UFBA/FAV, Estudos Contemporâneos em Dança, desenvolvi um segundo estudo, apenas teórico, a cerca do sapateado americano e sua relação com a dança contemporânea.
O texto abaixo é uma pequena reflexão sobre este estudo feito na especialização, o qual se tornou o primeiro estímulo para a composição apresentada na mostra do Ateliê.
Diante da história dessa arte visual e sonora, é evidente que seu caráter flexível e dinâmico torna-se mestiço por origem. Tendo como traço marcante o improviso, ou seja, o desafio, respeita a individualidade e a criatividade de cada sapateador, permitindo mistura de culturas, estilos e técnicas; fatores responsáveis por sua configuração. Porém, nos musicais parece haver a tentativa de homogeneizar o sapateado em uma técnica ou estilo padrão, essa padronização dos corpos se mostra com mais efetividade nas artes brancas européias. Com sua difusão pelo mundo, essa idéia é ampliada pela reprodução fiel do modelo norte americano.
O sapateado se encontra “preso no tempo?” O sapateado deveria se adaptar ao momento em que está inserido e não permanecer preso ao passado. A questão do que vem a ser a contemporaneidade do tap, é discussão comum entre os sapateadores, especialmente os que possuem uma relação com a dança contemporânea ou cursam alguma graduação em dança; os que têm o habito de pensar a dança. Tal questão sucinta refletir: quais são as intercessões entre a arte contemporânea e o tap dance? O que muitas vezes não é lembrado, é que o sapateado é, também, entretenimento. O que é o sapateado? Por que não tem espaço no mercado da dança atual? Será que sua linguagem é incompreendida? Como se tornar relevante?
Ultimamente, cresce o interesse dos criadores da dança contemporânea pelas danças populares, e no caso do sapateado ocorre, também, o interesse pela música popular, ou seja, de caráter folclórico. A corporeidade brasileira já é um grande diferencial, pois é característica que chama muita atenção fora do país. É importante lembrar que o tap dance é uma manifestação folclórica norte americana. Assim cada traço da cultura que está inserida pode se fazer presente nela.
Porém é inegável que existam semelhanças entre os sapateados das culturas referidas. Alguns sapateados folclóricos brasileiros, assim como o sapateado americano, também possuem em sua estrutura o desafio, a virtuose e a improvisação. Mesmo não sendo o Samba e o Frevo diretamente manifestações onde o sapateado se apresenta, eles sofrem freqüente comparação com essa dança.
Nas danças populares, especialmente as de origem negra, é evidente a relação com a força da gravidade. O “enraizamento” dos pés no chão parece conectar passado, presente e futuro, harmonizando o ritmo da terra com o ritmo do corpo, tornando música e dança uma coisa só. Os pés talvez sejam o foco da cognição e comunicação nas danças populares brasileiras e no sapateado norte americano.
O problema se instaura quando o sapateador é posto em cena. O sapateado americano como brincadeira, não possui um vocabulário específico de movimento. Conhecendo seu corpo e as possibilidades sonoras do sapato na roda, cada sapateador desenvolve seu estilo particular. A tentativa de reprodução de um passo de um sapateador para outro, representa a adaptação dele ao tentar implementar as informações que estão em outro corpo, um processo de assimilação e repetição. Contudo, não há como existir uma repetição fiel já que os corpos são sempre diferentes e sendo assim, ocorre a criação de “novos” movimentos. No palco, a necessidade de uniformizar esta dança, ao se tentar homogeneizar os corpos, compromete sua comunicação.
A dança contemporânea tem como uma de suas características articular linguagens distintas, o que ocorre também com mestiçagem. Porém, a mestiçagem só acontece quando o corpo do bailarino realmente entende os princípios dos códigos das danças propostas. Podemos dizer que há um modo específico do corpo dançar em se tratando do corpo brincante.
Mas onde ficam os limites entre uma dança e outra? Elas perdem suas especificidades? Pensar em preservação genuína neste caso é impossível. As, danças, linguagens de um modo geral se transformam, se misturam borrando elementos uma na outra, criando algo novo, uma diferença. Assim, da relação do sapateado americano com a dança contemporânea surge uma nova “linguagem” cênica, enquanto modo de combinar códigos diferenciados.
É importante ressaltar que segundo a teoria da mestiçagem as identidades são mutáveis, sendo a conexão com a memória através da historicidade dos corpos fator que impossibilita a perda total de alguns códigos. Desta forma, independente da técnica utilizada, o artista contemporâneo preocupa-se em atender as necessidades da obra que propôs conceber, sem pensar necessariamente em formalizar um modo ou uma técnica.
Mas quais seriam os motivos dessa dança? Atualmente inúmeros, porém se tratando de sapateado é inevitável não pensar em música, sendo uma arte visual e sonora existe uma relação intrínseca entre música e dança. Quem move quem? No caso dessa arte, é dificultoso identificar se a música gera o movimento ou se o movimento gera a música, especialmente se partirmos do princípio que a música é movimento e que o movimento possui um ritmo próprio, podendo vir a ser música.
Contudo, o motivo do movimento ou o movimento do motivo, talvez precise ser suficientemente relevante e coerente para deslocar quem aprecia para continuar existindo. Ele tem que ser e estar no espaço, ser e estar com todo seu passado no presente se relacionando com a atualidade e possibilitando novas configurações no futuro. Todo que existe estabelece uma conexão temporal.
É preciso praticar, experimentar, ouvir, dançar, enfim, pensar o sapateado. Não se pode pensar em dançar o sapateado como uma mera repetição de passos, pois isso incorre no velho vício de achar que o corpo é um instrumento. É preciso, sim, provocar a permanência dessa dança entendendo seus códigos e simultaneamente suas transformações. É necessário olhar como arte, que comunica e dialoga, intriga e instiga, ou seja, o corpo quando dança essa dança tem um tipo de pensamento.
No contexto brasileiro, dois coreógrafos parecem bem preocupados com essas questões, são eles Steven Harper e Valéria Pinheiro. A Companhia Steven Harper e Companhia de Brincantes Vatá, além de serem as únicas companhias brasileiras de dança a possuírem como linguagem norteadora o sapateado americano, têm em comum a tentativa de relação dessa arte com a dança contemporânea. Os trabalhos desenvolvidos por Steven Harper e Valéria Pinheiro demonstram um comprometimento com as especificidades da dança que eles propõem investigar. Há um estudo visível na elaboração dessa dança. Suas respectivas maneiras de sapatear são bem peculiares.
Somente cada sapateador pode responder o que é e que discurso quer propor. Na roda de improvisação seu corpo apresenta o tempo, espaço e cultura que está inserido, tornando sua performance sempre nova. Desta forma é inegável que o sapateado é e sempre foi uma expressão contemporânea, pois o padrão é ampliado por cada corpo possibilitando inúmeras configurações dessa arte.
Desta forma, meu trabalho investigativo esteve pautado na questão da necessidade do corpo de preencher o espaço-tempo musical. Minhas composições de início se limitaram ao gênero musical choro, o qual apresenta uma complexa estrutura musical que é apenas apreciativa, ou seja, não possui sua própria dança. Contudo, compreendo que a busca do corpo pela “apreciação” plena da música está na tentativa de uma relação direta, a tentativa de buscar um diálogo interativo. Na própria história da dança a música é uma grande questão, inicialmente é o motivo da dança, posteriormente a dança a tira de cena, por fim, volta como uma mera coadjuvante. Já nas danças populares não existe segregação, música e dança é praticamente um único elemento. Nas danças folclóricas sapateadas, fica evidente essa relação direta, mas o que chama atenção, as danças não sapateadas também são muito métricas.
Considero que o ápice do diálogo entre música e dança seja o tap dance, mais conhecido como sapateado americano. O próprio corpo em movimento produz som, o movimento coreografado produz música. O sapateado americano é por origem uma arte mestiça, relacionando-se com várias linguagens artísticas como o balé clássico, a dança de salão, o hip hop, o cinema, o circo e o teatro. Atualmente é explorada a possibilidade do corpo inteiro do sapateador produzir som, através da percussão corporal e de métodos musicais que buscam o entendimento do corpo. Essa idéia, “produzir som com o corpo”, é tão antiga quando o próprio corpo. Desde sempre povos no mundo todo usaram o corpo para tirar sons.
Tendo essas informações como norteadoras, foi iniciado o desenvolvimento de um segundo estudo de composição coreográfica tendo o tap dance como objeto de investigação. É o tap dance uma arte contemporânea? É possível dialogar o sapateado com a arte contemporânea? Quais são as possibilidades do corpo de produzir música e movimento ao mesmo tempo? Qual a necessidade desse corpo de preencher o espaço tempo musical? Essas foram apenas algumas das questões iniciais.
Os encontros do Ateliê Coreográfico ajudaram muito no amadurecimento das questões levantadas anteriormente, fruto de leituras, observações, experiências. Porém, o projeto abriu espaço para a experimentação efetivamente corporal, o início da construção da obra, projeto engavetado apenas esperando uma oportunidade para ser desenvolvido. Sinto-me extremamente satisfeita com o resultado apresentado, com as parcerias realizadas e com as possibilidades levantadas para uma contínua pesquisa coreográfica. Foi um módulo que me supriu quanto artista, tornando possível aprimorar a dupla vertente existente nesse corpo, mescla de música e dança, me senti também muito útil, pois pude colaborar de forma efetiva com o grupo, promovendo um diálogo de troca de informações com os integrantes e orientadores.
As referências que eu tinha do Ateliê Coreográfico era de um espaço onde o amadurecimento artístico se dava nas orientações, na troca com a diversidade do grupo, no espaço fluido da investigação pessoal onde as afinidades criam parcerias e oportuniza o aparecimento de obras artísticas. Foi exatamente isso que vivi neste módulo e fico na expectativa que no próximo não deixemos morrer esta árvore que foi plantada e que possamos colher os frutos no fim do projeto.
Rafaeli Matos
