quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Planta Central do Brasil

Olá!

Ontem o grupo fez uma visitação na Central do Brasil , e apesar de advertidos, conseguimos fazer uma pequena planta do local para termos uma ideia do lugar que desejamos para a ocupação.

Segue a planta desenhada pela Aline Deluna.

Abraços, Taíla Borges

PS: Cliquem na imagem para ela aumentar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

REUNIÃO DIA 24 DE SETEMBRO DE 2009

Olá!

Seguem os tópicos discutidos hoje, em reunião via skype com a diretora Regina Miranda:

ORIENTAÇÃO e METODOLOGIA DO ATELIÊ

Regina iniciou a reunião falando sobre a seguinte questão levantada pelo grupo: quantidade de informações diversas recebida através dos vários orientadores.


A diretora esclareceu que o Atelie é, antes de mais nada e como o nome indica, um lugar de experimentação e pesquisa. Os orientadores são chamados exatamente para propor experiências diversas, para fornecer diferentes informações e, assim, ampliar o conhecimento de todos. Regina também pontuou que é importante o grupo perceber que a vivência e o processo compartilhado com cada um dos orientadores é mais importante que a apresentação final. A apresentação é apenas uma outra experiência, que inclui a relação com a platéia. Nao é conseqüência, não é o objetivo principal e, portanto os estudos não convergem para ela. Frizou também que é claro que se pretende que as diversas informações possam ser articuladas pelos participantes, mas ressaltou saber que muitas dessas articulações e integrações se darão na vivência profissional de cada um para além do período em que estão no Ateliê. "Para absorver a informação e transforma-la em conhecimento é preciso vivencia-la" - Esta é uma frase que Regina falou muitas vezes durante os varios meodulos e que, novamente, serve para o momento.

SOBRE A PESQUISA

A partir da decisão conjunta sobre o teor da Performance a ser apresentada em novembro, que inclui o roteiro de Regina baseado em texto de Peter Handke e as observações realizadas até hoje pelo grupo, Regina clareou o uso das seguintes terminologias: "exploração ( o que foi realizado até agora) e pesquisa ( o que será realizado daqui em diante). Regina perguntou qual o objeto principal da pesquisa que vai ser iniciada. O grupo respondeu: "Situações cotidianas em um cenário urbano". Regina sugeriu então que o grupo se dividisse em 4 subgrupos e escolhesse 4 pessoas, que seriam os responsáveis pela reunião de informações dos diferentes aspectos da pesquisa e pela comunicacnao com a direção.
A direção sugeriu então as seguintes linhas de pesquisas e se mostrou aberta para a inclusão de outras que se façam necessárias a partir da pesquisa de campo. Deixou a cargo do grupo a decisão sobre a metodologia de pesquisa, mas frizou que deseja ser informada. Disse também que, embora em grupo, espera ouvir as vozes individuais dos participantes "Um grupo não deve silenciar o indivíduo." - RM

1ª - Tipos de pessoas que transitam no espaço onde ocorrerá a performance
2ª - Observação dos padrões rítmicos do lugar. Percepção dos padrões dinâmicos que se acontecem. (Ana Bevilaqua irea orientar esta linha de pesquisa)
3ª - Quais as geometrias? Quais os nós dessas geometrias. Como ela se configura? (Regina sugeriu que Bete oriente esta parte)
4ª - Quais os gestos e atitudes recorrentes no local independente dos tipos? "Podemos ter tipos diferentes com gestos recorrentes, por exemplo" RM

Em conversa posterior com Regina ela sugeriu tambem uma linha de observação de - formas de relacionamento. Assim, ao invés de 4, seriam 5 grupos.


LOCAL e DIAS:

Na reunião de hoje também foi definido o local geral da performance. O grupo, em conjunto com a direção, escolheu: CENTRAL DO BRASIL. Decidimos que serão usados os 3 dias (20, 21 e 22) no mesmo lugar, em horários diferentes.

Falta-nos o esclarecimento exato sobre qual espaço - dentro do prédio e/ou seus arredores, perímetro de atução, o que existe no lugar (arvores, bancos, etc.) - será utilizado pelo grupo na performance. O grupo estea encarregado de mapear o mesmo para a facilitação de criação e do pedido de liberação de espaço. Este mapa precisa estar pronto em no máximo 15 dias.

ÚLTIMAS QUESTÕES PROPOSTAS PELA DIREÇÃO

- Como uma performance pode transformar sem perturbar?

- Para quem e por que esta performance está sendo feita? O que ela vai proporcionar para o outro, para cada um e para o grupo?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Julio Rocha sobre o vídeo da Claudia

Interessante o video que a Claudia levou. Permite com aquela estrutura encaixar outros trabalhos o trabalho da Munique por exemplo corpo instrumento, o Diego usando as arvores ,corpo instrumentos nas árvores ,Deluna e Stank que usa (araras e muita poluição) oq falta e um pequeno roteiro e a inclusão desses trabalhos , antes de questionar se vai dar certo se terá segurança ou pessoas se isso ou aquilo.Toda vez que se coloca uma ideia em seguida a bloqueamos.Sugiro trabalharmos no que temos com essa inclusão ,depois vemos os "empacas ideias "( se vai ter gente, segurança,etc
Bom fique com Deus , estou me pronunciando agora pq vi algo se construindo como grupo e ñ como tema PERFORMANCE, somos performaticos por natureza talentos e ideias revoltas temos de montão nesse belo grupo e sabemos como usa-la ,seja para nos ou para outros

Aproveito pra deixar minhas desculpas já que ñ poderei esta no atelie nesta quarta -feira dia24/09, devido a um convite para um dos meus projetos algo que venho trabalhando a muito tempo e será de extrema importancia. E também uma forma de colocar em prática oque tenho aprendido no atelie coreografico.
A arte também pode ocupar outros lugares de liderança? Esse e um dos temas que coloco em debate nesse trabalho do grupo Seguidores da Arte de Rua.

continuação Roteiro espetáculo Ateliê 2003/2004

Quadro 4:
Praça brilha imensamente em seu vazio
Uma pessoa anda apenas numa área da praça. Outra, indescritível, com as mãos no bolso se volta para um lado e para o outro, sempre virando- se sobre si mesma. Um homem engatinha no chão mais ou menos seguindo-a
O perambulador entra na cena.Quando ele senta, abre um mapa, pessoas entram violentamente na praça vindas de todas as direções.Depois saem e outro grupo entra e quase todos saem. 3 ficam: o bobo da praça, um tentando respirar, outro abre braços reconhecendo que chegou. Anda para se juntar ao do mapa, olham juntos o mapa.
Enquanto isso, mulher entra com carrinho de compras acompanhada de um homem; param se abraçam de diversas maneiras e ela continua empurrando o carrinho p/ frente e trás.
Ela vai embora e ele a segue com alguma distancia levando o carrinho - PAUSA
Perambulador caminha vago, chapéu na mão, livro na outra.
Casal jogging re-aparece.Passam de um lado e outro do perambulador com gestos de boxe que derrubam objetos da mão dele. O perambulador prossegue e encontra outro jogger que o cumprimenta. O perambulador acena para ele. O outro pega os objetos.
Volta o homem com molho de chaves e Dois ou três homens bebendo em garrafas
O observador fecha o mapa. O “amigo”se levanta e olha para tras, parado.
Pequeno grupo de roupa branca e preta festiva tirando arroz do cabelo.
Beldade entra de costas, para de repente se volta para olhar – para o observador! Para.
Quase tão repentinamente um embrulho se joga na praça. O embrulho faz uma dança. Gritos, tremores, frente e trás, até que fica claro que não são várias pessoas e sim uma em sua batalha final com a morte; um sapato sai do embrulho.Bobo da praça imita homem que morre no espasmo final. Silencio.
Duas pessoas aparecem com movimentos hábeis e o corpo morto é carregado para fora
Fragmento de uma troupe de circo faz uma parada em volta da praça como arena.Chefe do circo, garota malabarista, um palhaço e um anão. No meio do caminho o bobo da praça se junta a eles e encontra um refúgio momentaneamente. Depois fica novamente só.
Beldade novamente aparece seguida por alguém que rapidamente dá um soco em outro que estava a frente. Sai e o outro segura a cabeça.Ela pára sem saber o que fazer. Alguém de patins pega sua bolsa, corre e a faz girar.Sai.Ela fica parada sem saber o que fazer.
Dois jogam bola, atravessando a praça.A Velha empurra seu carrinho familiar cheio de bolsas de plástico.Homem e mulher aparecem no caminho para postar suas cartas
Homem atrás da beldade , suavemente coloca mãos sobre olhos dela.Ela não se vira. Ele a levanta e gentilmente a carrega para fora da praça. Ela suspira aliviada.
Quietas idas e vindas de grupos indistintos. Som de crianças, gritos, choros, barulhos.
Duas pessoas se cruzam. Hesitam.Se olham.Se reconhecem/ gesto afirmativo cabeça. Se afastam. A distância, olham um para o outro e continuam caminhos separados.
O quadrado vazio, menor, como uma pequena ilha rodeada de sons oceânicos. Grito águia, breve momento. Som agudo gaivota.
PAUSA

Quadro 5

Folhas secas são jogadas em cena.
Homem segue mulher e logo depois mulher seguindo o homem. Ela bloqueia o caminho dele. Homem se esquiva.Ela agarra a roupa dele e ele a dela, trocam de roupa. Ele corre. Ela fica se ajeitando na roupa dele
Homem solitário se aproxima.Tem uma bengala. Por um momento parece ser só um velho aparecendo na praça. Aparece de um lado e quase sai do outro. Reaparece do mesmo lado. Eterno círculo.Velho vai mudando de personagem.Aparece afinal só como velho solitário.
Outros agora andam em círculo. De vez em quando param, procuram por suas cabeças, pés, braços. Caminham lentamente.
Alguem toca na bengala do velho.Ele se atemoriza e fica quieto até que um grito de criança vaza a cena. Sons de terror, gritos de dor, várias pessoas entram e dominam a cena. Param e andam. São as pessoas locais , os transeuntes, e neste repentino passar, gritos de crianças, rosto branco do velho. Todos servem de moldura para ele possa levantar a cabeça e olhar, mas não são os olhos que ele procurava. Nega com a cabeça.

PAUSA

Quadro 6
Quadrado de luz com seus ocupantes. Sons de batidas.
Um homem correndo em pânico e de repente não está mais com pressa.Encontra alguém.Eles se sentam a alguma distancia um do outro.
Quadro parado.
Novamente alguém se esquiva e o bobo começa a fazer palhaçadas. Sai para o lado. Para.
Alguém abre um livro, passa suas folhas e caminha para frente e para trás.
Por um momento ninguém passa. Todos ficam lá, parados.Não há nenhuma atividade.
Agora eles sentam. Descansam. Uns lideram e os outros fazem a mesma coisa.
Uma mulher levanta como se levantasse dos mortos. Primeiro dando cambalhotas, depois como uma figura andando.Outro se levanta. Tira a poeira do chapéu. Caminha calmamente com pequenos passos. Alguém procura lugar entre os outros e não é capaz de encontrar. Até que este que procura e não acha se torna dramático.Então o bobo da corte, o dono da praça, o mestre, mostra um lugar. O bobo deixa cair sua máscara e se transforma.
A praça e sua velha luz.
Perto ou longe uns dos outros todos estão em cena.
Barulho.Subitamente todos se recolhem.
Alguém se bate na face.
Alguém convida uma mulher para se sentar no joelho
Alguém ajusta o casaco.
Homem se encosta numa mulher com desejo de se segurar.
Outro arranha chão.
Outro espera. Depois outro chega e espera.Outros esperam.
Homem e mulher seguram no sexo um do outro.Alguém corta o cabelo.
Outro tira a poeira do sapato.
Outro joga chave para a mulher que pula para cima e para baixo.
Alguém se joga de barriga e escuta o chão.
Alguém não agüenta esperar e tenta sair, mas outro o traz de volta.
Alguém procura uma coisa e outro alguém, de quatro, começa a olhar da mesma maneira.
Mais e mais pessoas se olham....não, eles não se olham, eles se vigiam. Eles vão chegando mais perto, sempre nessa vigilância. Alguns só olhos, outros só ouvidos.
Alguns circulam em sinal de reconhecimento.
Ficam lá.
Um homem se levanta, sobe em outro, com olhos bem abertos segura atenção de todos. Seguro. Sorriso. Silencio. Se prepara para falar. Começa um discurso para si como uma prévia do que vai falar. Mesmo os de longe estão atentos. Fazem comentários.
Fica em silencio como se já soubesse o que vai falar. Mas fica em silencio.



Quadro 7
Praça vazia. Pouca luz
Respiro de borboleta, mariposas.
Embrulho amarrado flutua num pequeno paraquedas.
Alguém não identificável com uma vassoura puxando objetos que foram usados.
Começam pequenos movimentos. A memória. Pequenas fragmentos, a memórias dos atores. Pequenas reconstituiçõs com poucas pessoas.
O último quadro deve ser completado por quem vê. Damos apenas uma sugestão, uma respiração.

Roteiro espetáculo Ateliê 2003/2004

“Não traia o que você viu, fique dentro do quadro” (título provisório)

Roteiro e direção coreográfica: Regina Miranda
Criação de Movimento: Regina Miranda e Integrantes do Atelie Coreográfico
Assistente de Direção: Adriana Bonfatti
Luz: Regina Miranda
Figurinos: Atelie Coreografico

Quadro 1

Local: O palco é um espaço quadrado com luz brilhante tendo em cada lado uma longa mesa aonde se encontram os objetos/roupas que serão usados durante a apresentaçao.Lanternas ou pequenas luzes iluminam um pouco esses objetos

Alguém atravessa o palco correndo: Corre rapidamente, cai, retira a poeira do corpo, levanta os braços e anda.( Bruna)
Outro corre e passa pelo quadrado em diagonal (João P.)
Um caminha a vontade de um lado para o outro do quadrado ( Carla)
Outro deambula, (Fabio) se abana com ambas as mãos. Joga a cabeça para tras.
Alguem ( Cristina) vem se encontrar com este, marcando um ritmo silencioso com a mão; e depois entrando em harmonia ritmica; o corpo inteiro se harmonizando num mesmo ritmo.
Ao mesmo tempo, entrando pela frente, da direita para esquerda: de cima, como se saltando de uma ponte, e de baixo vindo de um poço, um grupo entra, aparecem, mudam de forma abruptamente, saltam sem modificar a expressão facial e desaparecem.

Procedendo por acumulação, pessoas variadas entram em ações conjuntas. Estas ações se acumulam à estrutura repetida do quadro anterior ( escolher dentre as seguintes ações tanto para quadro 1 como para o quadro 2)
Correr * ( Guto e Tatiana)
Abrir os braços* ( Claudia Petrina)
Limpar sapatos* ( Natasha)
Esconde os olhos* ( Cristina)
Andar com bengala
Andar* ( Antonio)
Tirar o chapéu
Escovar cabelos
Desenhar uma faca
Boxear o vazio (com um fantasma)
Olhar por cima dos ombros ( Paula)
Abrir guarda chuva
“Sonambular”* ( Verônica)
Cair no chão* ( Diego)
Cuspir
Se equilibrar numa linha tropeçando
Skipping* ( Fernada e Cristina – quadro 2)
Giro
murmurios
Socar a cabeça e a face com o punho
Atar o laço do sapato
Rolar no chão
Escrever no ar

PAUSA

Quadro 2 (identidades mais óbvias)
Alguém atravessa o quadrado. ( Antonio – lendo)
Alguém como uma mulher velha, cheia de roupas (enfaixadas, amarradas), puxando um carrinho de compras atrás. Ela está quase desaparecendo. ( Rejane e Hero)
Alguém andando perdido em sonhos: um fã de futebol com uma bandeira já desgastada. (Fernanda)
Ele é seguido por alguém ( Bruna e Estela Guz) com uma escada.
Uma beldade, roça a cena e as pessoas.
Alguém de patins cruza a cena rápido ( Romildo)
Mais ao fundo, uma mulher ( Maria Clara) atravessa o palco cautelosamente, cada passo contém uma parada, medindo cada passo. Suas mãos cobrindo a face. De repente ela deixa cair os braços e anda em círculo
Imediatamente atrás , 2 jovens moças de braços dados, ( Fernanda + Cristina), param olham, riem, repentinamente começam a fazer estrelas para um lado e para outro ( ao mesmo tempo em que Estela tambem cae em estrela e saem em “skip”.
O zelador da praça, ziguezagueando, espalhando mão de cinza, auxiliado por um homem velho solitário, com sua cabeça alta no topo da qual tem um chapeu. Depois o larga, quando seus passos se transformam em passos de dança. (Ligia + Alexandre Rudah)
Simultaneamente um homem de negócios ( João) atravessa e coloca um molho de chaves no bolso de onde tira um outro ainda maior.Procura a chave adequada enquanto caminha.
Alguém indefinível entra como se tivesse correndo atrás dele, pára no meio do quadrado, retorna e para observando.

Pausa ( com o observador)





Quadro 3 ( impressões)
A sombra do avião; poeira; nuvem de fumaça;
Um homem com um buque de flores anda rapidamente para um lado do quadrado; desaparece um instante e volta pelo mesmo caminho.
Um sakeboarder entra em curva, para, coloca o skate debaixo do braço e para ao lado do primeiro de forma contemplativa.
Grito das gaivotas.
Uma mulher ( Maria Clara, nas pontas) carregando cuidadosamente uma bandeja com copos de vidro.
Um homem com óculos de cego tenta encontrar o seu caminho sem a bengala, para: perdido.
Ele é circundado por atividades diversas (ruidos da cidade)
1) alguem correndo no lugar
2) alguém virando páginas de um jornal
3) alguém abre a tampinha de uma garrafa
4) alguem com um gravador aonde estão gravados diálogos de rua
5) alguém com um carro de controle remoto
6) alguem deixa cair um pedaço de ferro mais ao fundo
7) alguem entra e fica olhando por cima do ombro de outra pessoa
8) alguem entra, olha por cima do ombro do cego, segura-o e o leva para fora do quadro

Um grupo entra com malas e atravessa parte do palco, para e olha.
Uma pessoa absorta na leitura de um livro caminha sem olhar.

E-mail Regina sobre o vídeo da Claudia Horta

Para os participantes e orientadores

Olá queridos e queridas,

Sei que Claudia levou um vídeo que acelerou certas as memórias. Que bom! Achei BEM interessante voltarmos a olhar para esse roteiro depois da pesquisa que vcs fizeram em praças e ruas, o que dará um outro embodiment para cada figura.

Na peca original, Handke introduziu mais de 400 tipos, dos mais comuns aos mais alegóricos. Para o Ateliê 1, eu fiz uma GRANDE seleção, que pode ser diminuida ou acrescida de outros tipos, já que não seria propriamente a peça e sim uma criação a partir de um roteiro, que em si já contem uma grande escolha. Escolhi esses transeuntes pensando nas pessoas daquele ateliê, mas qualquer outro tipo pode fazer parte do texto cênico. Se vcs me confirmarem esse desejo em nossa conversa de quinta, eu irei novamente em busca do texto original para ver se eu incluiria outros tipos, pensando em VOCES:-)

Mas, animada e já começando um pouco a dirigir: Como já deve ser do conhecimento de todos, todos os meus trabalhos lidam com a questão do olhar. Aqui, o que mais me atraiu é como cruzando-se diariamente, pessoas podem ser invisíveis umas para as outras. Da mesma forma, conexões acontecem temporariamente, tornando as pessoas visíveis, mas ao se desconectarem, tornam-se novamente invisíveis. Pensando sob essa ótica, minha visão para esta performance é que:

1. Ao atravessar o espaço (cuja geografia deve se manter a mesma), formam-se quadros que se sustentam por segundos para em seguida se diluir. Nessas passagens e suspensões podemos perceber um pouco do que cada transeunte é, mas cada personagem esta protegido em sua privacidade.

2. A medida que a peca coreográfica avança, o autor do texto que deu origem a esse roteiro sugere que, em virtude de um temor não muito definido, esses transeuntes tentam se conectar, oferecendo uma imagem simpática, amorosa de si mesmos. Com isso, cenas que seriam privadas se tornam publicas e as pessoas forma relações.

3. Ao final, as conexões estabelecidas se provam temporárias ou ilusórias (experimentar diferentes motivos para que as conexões se diluam) e os transeuntes voltam a seu isolamento.

Já da pra começar a experimentar, não é? Vamos nos falando! Conheço bem o autor e estudei bastante esse texto, então para mim, será bom revisita-lo e reencena-lo enquanto performance.

Alem das orientações acima, envio tb uma primeira pergunta para pensarem: como faremos essa transição? Qual será, dentro do que vcs ja estudaram sobre performance, a principal diferença entre uma peça coreografia e uma performance?

Grande beijo em todos, Regina

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Última conversa com Marina Salomon

Amores,

Apenas um breve resumo da última conversa que tivemos para esclarecer aqueles que não estavam, e para não perdermos o que foi colocado:

Na última aula de Marina Salomon, conversamos depois e foi levantada a questão do grande número de orientadores e o cada um destes iria trabalhar com o grupo. Marina esclareceu que se o grupo se decidir em direção a determinado "tema" e quiser que os orientadores nos auxiliem mais direcionados a esse, existe essa possibilidade. Ela disse que cabe a nós essa decisão. Em relação a direção da Regina, Marina disse que se ela fosse realizar uma idéia concreta, esta já estaria sendo feita, e que o resultado do que for resolvido por nós irá "direcionar" a direção final, tudo depende do quanto estaremos envolvidos com o que for proposto. Ao mesmo tempo ela ressaltou que enquanto não colocamos nenhuma posição, os orientadores seguirão sua propostas.

Proposta 1:
Eu coloquei para o grupo a idéia de trabalharmos com um objeto de leitura geral (EX: álcool em gel) e que fosse este o elo do grupo podendo cada grupo menor ou individualmente, ou todos trabalhar sua performance a partir desse, de diversas maneiras, sem um necessidade de ser executada a mesma performance por todos.

Foi ressaltada a importância de que as idéias sejam expostas e colocadas em prática entre nós mesmos, pois se cada um expor o seu "desejo" dentro da proposta podemos a partir desse ver quais se complementam, quais podem ser trabalhados por todos, quais são mais individuais, e de repente consigamos construir um ponto central a partir destes.

Foi sugerido que houvesse um dia na semana em que aqueles que tivessem mais claro suas idéais a colocassem, e experimentassem com o grupo. Quanto ao dia para isso foi proposto a terça-feira, mas isto é o que foi conversado e por enquanto não foi fechado nada.

Acredito que fui fiel ao que foi conversado e se houver algo que não esteja correto, ou caso seja acrescentado algo, respondam com cópia para todos!

Beijos!
Aline Deluna

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sophie Calle - Cuide de Você

E-mail enviado dia 9 de setembro

Olá queridos,
Achei interessante essa pequena matéria de Alexey Dodsworth sobre a artista plástica Sophie Calle que propõe na sua atual exposição a transformação de sua "dor" em arte, e da forma como também propõe o hífen entre a proposta dela e a de qq um de nós, pensando pelo viés de transformar a nossa experiência em arte. Por conscidência, uma amiga querida foi a exposição e achou interessantíssima. Segue link da exposição "Cuide de Você" http://www.sophiecalle.com.br/
Bjs, Rê


No dia 24 de abril de 2004, a artista plástica francesa Sophie Calle recebeu por e-mail uma carta de rompimento. A mensagem enviada por seu namorado foi bastante prolixa, e poderia ser sintetizada de forma simples: "não quero mais te namorar". Ao longo do texto, o namorado de Sophie fez a ela muitos elogios, e terminou o texto escrevendo um singelo "cuide de você". A expressão em português pode parecer errada, já que o correto seria "cuide-se" mas quando escrevemos "cuide de você", tradução literal do francês "prenez soin de vous", tem-se a impressão que a pessoa nos mandou tomar conta de nossas vidas. Vá cuidar de sua vida! Não é um amor?
Ouvir ou ler este tipo de coisa não é algo fácil para a maioria das pessoas. Dizem que uma das piores dores que se pode sentir é a dor da rejeição."Dizem que uma das piores dores que se pode sentir é a dor da rejeição." Eu acredito nisso, muito embora me pareça que a tal da dor do término muita vezes venha a ser piorada pela parte que sofreu a rejeição. Quando estamos apaixonados, pode ser difícil perceber que a outra pessoa não está mais interessada em nós. É dito que para bom entendedor, meia palavra basta. Mas como a paixão meio que nos emburrece, às vezes precisamos de textos bem explicadinhos. Não adianta simplesmente sumir ou esfriar. Nos términos amorosos, é preciso - e de bom tom - saber se explicar.
Será que existe uma maneira "correta" de terminar um relacionamento? Por um lado, há os que criticam términos feitos por telefone, cartas ou por mensagens eletrônicas. O argumento sempre me pareceu razoável: se namoro com uma pessoa e ela por um tempo foi importante em minha vida, o mínimo que se pode fazer é conversar frente a frente. Mandar um e-mail, como fez o namorado de Sophie, soa algo covarde. Por outro lado, há pessoas que simplesmente não entendem e não aceitam a ruptura e se comportam como loucas, fazem escândalo, ameaçam se atirar do alto da Torre Eiffel num espasmo de suicídio chique e outros comportamentos mais condizentes com um filme tragicômico. Note: chorar é normal, demonstrar tristeza, ou mesmo eventualmente raiva é totalmente normal, mas se portar com selvageria quando diante do "adeus" alheio justifica perfeitamente que algumas pessoas se despeçam por meio de cartas e e-mails, não as culpo. Deste modo, creio que seria perigoso julgar como "covarde" quem termina um relacionamento por carta - sabe-se lá, afinal de contas, com quem esta pessoa namora!
Mas voltemos ao caso de Sophie Calle. Um tanto quanto pasma com o término por e-mail (considere, caro leitor, que Sophie é uma mulher adulta, inteligente e razoável), ela não soube o que responder. A questão é: haveria o que responder? Prolongar a despedida pode ser mais doloroso do que a própria despedida. Sophie então resolveu sublimar sua perda, convertendo-a em arte, sua especialidade. Deu a carta para que 107 seres do sexo feminino (incluindo aí uma macaca e uma papagaia) a lessem e dessem seu parecer particular sobre ela. 107 olhares sobre um mesmo texto. Bem, nem é preciso dizer que a papagaia comeu a carta, e a macaca a utilizou conforme bem entendeu. As outras 105 fêmeas, humanas que eram, deram variados tratamentos à carta de despedida. A maior parte das respostas e reações destas mulheres pode ser vista na exposição "Cuide de Você", aberta ao público no SESC Pompéia em São Paulo até 7 de setembro próximo, ou em Salvador, no MAM, entre 22 de setembro e 22 de novembro de 2009.
Alguns acharam que a exposição era uma forma sutil de vingança. Da minha parte, vejo diferente: Sophie Calle fez surgir beleza de uma situação de dor. Quantas pessoas são capazes disso? A acusação de vingança cai por terra se considerarmos que Sophie não identificou o nome de seu ex-namorado na exposição (ele mesmo se revelou posteriormente, mas isso é outra história). A obra de Sophie nos apresenta a uma possibilidade e tanto: podemos fazer algo de belo com nossas dores."A obra de Sophie nos apresenta a uma possibilidade e tanto: podemos fazer algo de belo com nossas dores." Nem todo mundo é um artista plástico do calibre de Sophie Calle, mas muitos de nós são perfeitamente capazes de usar os recursos que possuem para fazer uma limonada a partir de alguns limões azedos. No final das contas, vale ter em mente que separações acontecem o tempo todo, e que o mundo não deixa de girar por conta disso...
A carta
Aos curiosos, eis a carta que Sophie Calle recebeu:
Sophie,
Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último e-mail. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Mas pelo menos será por escrito.
Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. É como se não me reconhecesse na minha própria existência . Uma espécie de angústia terrível, contra a qual não posso fazer grande coisa, senão seguir adiante para tentar superá-la, como sempre fiz. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a "quarta". Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as "outras", não achando obviamente um meio de vê-las, sem fazer de você uma delas.
Achei que isso bastasse; achei que amar você e o seu amor seriam suficientes para que a angústia que me faz sempre querer buscar outros horizontes e me impede de ser tranquilo e, sem dúvida, de ser simplesmente feliz e "generoso", se aquietasse com o seu contato e na certeza de que o amor que você tem por mim foi o mais benéfico para mim, o mais benéfico que jamais tive, você sabe disso. Achei que a escrita seria um remédio, que meu "desassossego" se dissolveria nela para encontrar você.
Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições sequer de lhe explicar o estado em que me encontro. Então, esta semana, comecei a procurar as "outras". E sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Jamais menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,?) e compreensível (obviamente?); com isso, jamais poderia me tornar seu amigo.
Mas hoje, você pode avaliar a importância da minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante da sua vontade, pois deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre as coisas e os seres e a doçura com a qual você me trata são coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você da maneira que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje, seria a pior das farsas manter uma situação que você sabe tão bem quanto eu ter se tornado irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide de você.

Sugestões para pesquisa

Email enviado dia 4 de setembro

Olá membros do Atelie,

Para ilustrar a metodologia etnografica, que estou procurando desenvolver para a criação destaa performance, envio abaixo alguns parâmetros para ajudar vocês no desenho da pesquisa e no decorrer do processo de criação. Venho desenvolvendo uma metodologia etnográfica de criação desde Rua Alice 75. Espero que ao propor essa linha de direção eu possa ampliar o território de composição de todos voces.

A metodologia etnografica não obedece a padrões muito definidos, mas os critérios abaixo são interessantes para estruturar e continuamente avaliar o processo de criação:

1 - CONTRIBUIÇÃO SUBSTANTIVA: " A performance contribui para o entendimento da vida social?' Como?"

2 - PROCESSO ARTÍSTICO: "A performance é bem estruturada artísticamente, ou seja, seus processos de criacão são pertinentes para o objetivo de criação? Como?"

3 - PESQUISA: " As pessoas envolvidas no processo de criação estão ativamente envolvidas na pesquisa, possuem ou se dispoem a adquirir consciência das questões levantadas? De que maneira as questões poderão ser compartilhadas por quem fizer parte da performance, para alem de seus proponenets. ou seja, qual é o papel da "platéia" na performance?
IMPACTO: "Como a performance afeta os proponentes emocionalmente e intelectualmente. E como a performance pretende afetar a coletividade para alem do capo artístico?

4 - RELAÇÃO COM A VIDA DA COLETIVIDADE: A performance se torna "real" para os proponentes e se conecta com o real da coletividade em quais dimensões?

(Trecho retirado de Miranda, R. (2004) "Processos de Composição com a Cia. AtoresBailarinos do Rio de Janeiro". Ver paginas 102 e 102 de Corpo-Espaço, que articula este pensamento, sem as questões acima, que estarnao incluidas no proximo livro)

DE FORMA NENHUMA estou dizendo que esta é a única meneira de se conceber uma performance, mas acredito que esta metodologia possa colaborar na questão que levantei durante as minhas aulas, sobre qual a relevancia atual da atividade artística de dança para a vida da coletividade. Nao é a unica resposta, é claro. Mas é uma avenida que posso compartilhar e orientar e que não é muito comum em nosso meio, portanto penso que possa estender o conhecimento de voces.

Grande abraço e BOM TRABALHO!
Regina Miranda

QUEM DÁ CHOQUE NO ESTADO?

Emails trocados entre os dias 7 e 9 de setembro.

texto do site overmundo
abraço
até amanhã na Praça Afonso Pena.
bjos, Diego Dantas

Choque de Ordem na Visão do Mate Com Angu

É incrível como muitas vezes a gente vai aceitando passivamente os discursos ventilados nos grandes meios de comunicação, difundidos como quem não quer nada e que de uma hora pra outra, pronto, viram ações legitimadas pela chamada opinião pública.
O mais recente desses discursos é o tal choque de ordem, propalado aos quatro ventos como a solução para todos os problemas e elevado a novo mantra dos tecnocratas de plantão, aqueles mesmos que mais atrapalham do que ajudam.

Parece papo de perseguição, conspiração e coisa e tal – e talvez seja mesmo! O fato é que o Estado do Rio vive um momento de adesão à tal política de choque de ordem, mesmo quando ninguém entenda exatamente de que ordem estão falando.

O Mate Com Angu vai falar disso, metendo o dedo de com força nessa discussão.

Primeiramente esse discurso em voga não é exatamente novo na história política do país. Foi com o discurso de choque de ordem, de civilização, de acabar com a bagunça e nomes afins que o país entrou em grandes roubadas ao longo de sua história. Haja vista o bota-abaixo do Pereira Passos, as pregações de Carlos Lacerda, a vassoura de Jânio Quadros, o golpe de 64, entre outros, que parecem revelar sempre a mesma pedra no sapato dos encastelados no poder: o que fazer com o povo, com aquela gente miscigenada e amontoada nos morros e palafitas das cidades?

Acredite: esse discurso saneador, de assepsia, de limpeza, representa um dos mais perigosos discursos em tempos conturbados como o nosso. Justamente porque ele legitima práticas totalmente condenáveis de exceção, perseguição, rotulação, criminalização.

Seja na cidade do Rio, em Duque de Caxias, em Macaé etc, o discurso do choque de ordem bota abaixo sem discussão a história, a cultura, a vida das pessoas, antes que se possa argumentar com a lógica, com o bom senso. Exatamente o que fazia a ideologia do nazi-fascismo. Parece exagero, mas esse discurso – e sua prática sumária – é uma prima de primeiro grau dos linchamentos de mendigos, da queima de índios nos pontos de ônibus, das surras em prostitutas na madrugada. Tudo em nome da “ordem”, da “limpeza” das ruas, do “ordenamento”, da “organização”, da assepsia, do “bom visual”.

Por muito menos a sociedade já viu abusos desumanos decorridos disso. A ditadura militar, por exemplo, fez esse quadro recrudescer de maneira dramática: enquanto a classe média curtia o consumo nas ondas do milagre econômico as cidades aprofundavam uma fenda que hoje chega às raias do inconciliável... Só um gênio como Bezerra da Silva pra testemunhar e relatar a vida da população por volta de 70 e 80...

Quando Nelson Pereira dos Santos filmou Rio 40 Graus, em 55, descortinou-se um Rio de Janeiro que melava o culto cartão-postal do Redentor, da Princesinha do Mar, do Pão de Açúcar, do Cassino da Urca, dos famosos bailes onde as pessoas curtiam felizes as delícias proporcionadas pela geografia generosa da Cidade Maravilhosa... Hoje aquele Rio mostrado pela primeira vez na tela tomou conta e parece muito maior e mais “perigoso”. Receita: criar mecanismos para criminalizar o povo. Limpar as ruas. Ordenar a Zona Sul do Rio. Choque de Ordem neles.
Porque afinal de contas, essa política também é extremamente covarde: primeiro baixamos o cacete nos informais, nos malditos camelôs, nos biscateiros ilegais que atravancam o progresso do país... Depois, se der tempo, podemos desconcentrar a renda, fazer reforma agrária, prender os corruptos e fazê-los devolver o dinheiro, essas coisas. Depois. Agora não. O valente só é valente em relação ao mais fraco. Qualé, choque?...

E pior do que a ideologia posta em prática é o silêncio das camadas que poderiam protestar, intervir, fazer barulho. Não falamos nem do silêncio e da conivência da grande imprensa porque esta já está caindo até no ridículo, como é o caso da revista Veja, por exemplo. É muito perigoso que esse discurso vá contaminando a sociedade e ninguém revide.

O velho Heráclito de Éfeso há 2.500 anos atrás já dizia: a harmonia oculta é superior à aparente. Sábio, profundo isso. E agora é o momento de ousar novas ordens, aprender com a criatividade. O Brasil é de fato o criador da Nova Ordem Mundial, filha da Cultura, do Improviso, da Convivência, da Música como ordenação. É preciso um novo sentido para ORDEM. MEDRO. MDORE. EDROM. MORDE. DORME.

Enquanto os políticos que estão aí oscilam ou entre o banditismo explícito saqueador dos cofres públicos ou o salto alto da geração Barra da Tijuca, estamos lascados. Mas somos uma minoria barulhenta e não estamos sós.

Sem o velho vício de falar em nome do povo, o Mate Com Agu propõe hoje uma reflexão sobre que modelo de cidade queremos. Algumas coisas já sabemos: com distribuição de renda e com mais imaginação. Mais arte e mais comida no prato. Mais cidadania e mais sexo. Mais respeito e mais diversão. A ordem é a desordem de ser humano.

Resumindo:
1) choque de ordem é o caralho!
2) E QUEM DÁ CHOQUE NO ESTADO?


Abraços chocantes,
Cineclube Mate Com Angu
7 anos desafinando o coro dos contentes


[texto do programa da sessão Choque de Desordem, realizada no dia 25/03/2009]

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Victor D'Olive - Relatório Musica e Movimento

A percepção ativa das sonoridades manifestantes no universo das coisas e homens ao nosso redor permite-nos apreender o mundo como produção contínua de impressões que em forma de música tem potencial de articular a vida e colorir a dinâmica do corpo que dança, auxiliando-nos no árduo processo de compreensão das múltilplas relações que o sujeito mais do que potencializa, imprime no mundo. Todavia, este estado de imbricado vínculo entre o corpo e a sua essência musical que engendra estruturas de inúmeras luminosidades, qual calidoscópio, não se desenvolve na ausência de determinados estímulos, qual o silêncio e a necessidade do ato de escutar, que nos orientam a promoção de impressões não prescindíveis à validação deste conjunto poético, cooperando em nosso empreendimento criativo e, mormente, no aprofundamento de nossas questões relacionadas à rede de significações moduladas pela música e o movimento.
Esta rede de significações conquanto, em primeira instância, funcione como a organização de conjuntos sonoros, vibracionais e gestuais estruturados a partir de determinados arranjos simbólicos ou códigos compartilhados ou linguagens pode ser percebida em todas as coisas e manifestações do mundo; pois, mesmo que os músicos e bailarinos insistam em definir a categoria de suas produções como algo organizado por um conjunto harmonioso e propositor, podemos captá-las em todas as ambiências, e à medida que reconhecemos no caos, que engendra a continuidade e produção eterna do Infinito Universal, uma desordem em formato organizado – ainda que não por bipolaridades e dicotomias – encontramos na Natureza esta grandiosa proposta de harmonização e apreendemos a redimensionar as bases do fenômeno da percepção.
Certamente, o entendimento destas bases fenomenológicas não é facilitado a todos os seres pelo fato deste processo de assimilação se dar em camadas muito profundas e exigir um estado de distensão que se torna cada vez mais raro nos tempos hodiernos à medida que os homens procuram compartilhar de maneira contínua suas experiências – mesmo que ingênuas, tolas, desqualificadas ou nada interessantes – tornando este entendimento algo artificial, equivocado e superficial; ainda assim, contudo, persistimos na divulgação das impressões e sensações que nos orientam não só na formação de imagens sobre o casamento entre música e dança, mas também na edificação de palavras e remodelação de ações no âmbito social.
A necessidade de promover o silêncio caracteriza nossa própria sabedoria, pois, é a partir do que ouvimos, apreendemos e depreendemos com atenção ativa que podemos propor abordagens diferenciadas ou afins e desenvolver conteúdos que consideramos carentes; o silêncio é a articulação da Vida porquanto a sua presença funciona como orquestra da própria intimidade disponível aí em compreender a fluência de bastar-se; o silêncio é base para ciência, filosofia e religião e, portanto, para o entendimento dilatado do homem. Por isso Cage, em sua obra, propõe que ouçamos o silêncio e examinemos nosso comportamento individual ante sua presença, divulgando o homem e(m) seu potencial musical, gestual, vital, interrompendo o contexto no qual o material montado é montado e, por fim, apresentando o silêncio como antagonismo em equilíbrio, contraste em harmonia, força reguladora do logos, forma artesanal do ser no mundo.
A necessidade do ato de escutar, e isto faz-se importante apontar, não se cria apenas neste processo relacional entre música e dança mas também nas relações intrapessoais, interpessoais, intersocietárias; não há como entender o que o outro diz sem predispor-se a ouvi-lo; afinal, como diz Benjamin “quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido”. É aí que se estabelece a poética do encontro entre o compositor e sua obra e o ouvinte ou espectador e, igualmente, ente os homens em sociedade, uma poética esquecida e abandonada por muitos de nós. Por isso, no módulo III desenvolvemos uma pesquisa coreográfica em que o público se manifestava tecendo comentários sobre a obra em desenvolvimento.
Todos estes princípios formaram-se nas discussões e aulas do Seu Zé (José Eduardo Costa Silva) acerca dos mecanismos da apreciação e experimentação musical; nestes momentos – e aqui assumo o caráter de pessoa singular, pois acredito que este conjunto de percepções me pertence de maneira bem positiva – onde trabalhei o potencial analítico da escuta e elaborei reflexões entre música, corpo e sociedade pude perceber a existência de um entendimento debilitado incorporado em grande número de parceiros acerca da liderança. As pessoas nutrem um ideal de liderança cuja base consiste em sobrepor-se ao outro, submetendo a alteridade à submissão e a um estado que deflagra a existência de uma autoridade pautada na monovocalidade. Não acredito em liderança que não se paute em compartilhamento, na valoração dos homens, promovendo-os em parceiros, colaboradores agentes ativos de nossas necessidades e realizações, engendrando polivocalidades. Liderança em meu entendimento consiste em conciliações, em movimentar posturas ativas ante as insuficiências do grupo e criar proposições para que os sujeitos não se alienem numa rede de conhecimentos e informações, mas para que, sobretudo, eles trabalhem com esta rede; não é fomentar unanimidades, porcos enfileirados, mas homens pensadores e críticos e criativos e independentes, livres. Liderança não é exercitação de hegemonia, pois, segundo Carnoy “a hegemonia compreende as tentativas bem sucedidas da classe dominante (...) para impor sua visão de mundo como inteiramente abrangente e universal, e para moldar os interesses e as necessidades dos grupos subordinados. (...). Ela é plena de contradição e sujeita ao conflito” enquanto que a liderança é coerente e aberta ao diá-logo.
O perfil de liderança que percebo ser fomentado e interpretado no Projeto Ateliê é um perfil de simulacro onde as pessoas necessitam articular discursos menos para discutir e mais pela necessidade de aparecer, onde pesquisadores em formação deformam-se ante a indigência de criar menos pelo exercício da criação e mais pelo dever (grato dever), que de algum modo vejo transformado em árdua obrigação. E isto traz como conseqüência e efeito a decadência que transforma os pensamentos não em castelos que acolham de maneira generosa a idéia do próximo, mas em ruínas sombrias, egoístas, improdutivas validadas pela pobreza das aparências. Por isso, hoje existem muitos estudos e aventuras investigativas nos círculos da liderança, estas, entretanto se organizam muito menos (ou de forma alguma) para que os orgulhosos mandem melhor, e sim para que cada homem aprenda a reger suas relações a partir do sentimento fraterno da solidariedade, ouvindo o silêncio e dilatando a escuta.

Relatório Ateliê Coreográfico 2009
Módulo III – Música e Movimento
Victor D’Olive - 14 de agosto de 2009

Munique Mattos - Relatório Musica e Movimento

TOQUE

Há três anos delimitei, olhar e corporeidade a cerca da percussão corporal- arte de produzir sonoridade percutida no próprio corpo, no entanto, ainda não havia estabelecido uma relação criativa desta linguagem em suas nuances próprias, pois, em favor de determinadas temáticas, era inclusa quase sempre como um instrumento musical.

O tema música e movimento do terceiro módulo do Ateliê Coreográfico convergiu com meu atual interesse para composição coreográfica, comportando o desenvolvimento de pesquisas de movimentos percussivos pré-concebidos, mas que até então, não haviam sido elaborados de maneira direta com a dança contemporânea. Foi uma oportunidade de fluir e permitir vir à tona conjugações e tendências da percussão corporal influenciada por algumas questões próprias a cerca da dança contemporânea e pelo conteúdo desenvolvido pelos professores do módulo.

Percussão corporal é como foi classificada a produção de gestos percussivos no próprio corpo, gerando sons com timbres corporais- estalos de dedos, batida de palmas, sapateado, percussão vocal, o som da palma da mão em diferentes partes do corpo (perna, peito, barriga, bochecha, nádega, etc.), percussões possibilitadas pela boca e/ou com a língua sem o uso das mãos, podem figurar alguns exemplos que estão presentes em nosso cotidiano, na expressão de diferentes culturas, nas danças e na arte mundial.

Nas salas de aulas de dança, o sapateado americano (Tap dance), proporcionou um contato mais freqüente e elaborado com a técnica corporal de som e movimento. Mas, presente em meu cotidiano popular, a percussão corporal foi também apresentada a partir das brincadeiras infantis que envolviam o canto e o contato percussivo com outras crianças- como adedanha, pirulito que bate-bate e din-din- castelo, que traziam uma atmosfera musical e de jogo. Assim, não se tratando de uma técnica apreendida dentro de sala de aula apenas, mas de uma relação observada e desenvolvida no dia-a-dia.

Por isso, acredito que o encadeamento cênico comportou-se com muita potência neste lugar mais coloquial, que beirava o gesto, onde a busca coreográfica tratou menos de uma rebuscada e emaranhada coreografia de dança percussiva, estava mais atenta às possibilidades despretensiosas que surgiram e que fizeram por vezes construir um diálogo cênico aberto e espontâneo a partir de jogos improvisados que convidavam a memória e a história de cada intérprete a uma cena que se propunha em desenvolver relações rítmicas sonoras ou não.

A composição intiltulada “TOQUE”, desenvolvida durante o terceiro módulo do ateliê Coreográfico e apresentada na mostra de finalização- Café Menu- em 03 de Julho deste ano, teve a percussão corporal como principal personagem, mas, transcendeu este fazer para dialogar a partir de seus princípios de som e movimento, proporcionando interagir com situações cotidianas, a linguagem verbal, a arte do sapateado americano de chinelos havaianas, o teatro, a música e a dança.

Grande parte do trabalho necessitou uma estrutura aberta- sendo esta uma presença primordial para nosso estado cênico e desenvolvimento tônico muscular, pois, não se tratava de estar interpretando algo e sim de criar atenção aos diálogos, colocando-se num estado atento e presente, que permitisse o entendimento de novas associações e diálogos, além do encadeamento do roteiro e dos momentos ancorados, dando noção e caminho para o texto coreográfico em sua curva de início, meio e fim.

Para mim foi um processo desgastante ao mesmo que prazeroso. O desgaste, resultado da busca pelo encadeamento das composições, pela construção de um texto cênico coerente, revelou-me as múltiplas possibilidades das informações a cerca dos materiais e percebendo mais e mais sensações e aceitando as múltiplas possibilidades de uma relação infinita que é o fazer criativo.

Prazeroso por envolver um somatório de informações especiais: primeiro por ter tido a oportunidade de desenvolvê-lo gradativamente, com auxílio dos amigos que compõe o projeto, tanto professores como os artistas do ateliê coreográfico, assim, me felicito por acreditar que o resultado não seja fruto de um processo isolado e egóico, por isso, permitiu ser compartilhado e compreendido por pessoas de histórias e opiniões diversas; segundo, o nascimento inusitado do duo com o Lucas, que surgiu de uma brincadeira durante as aulas, assim, tenho a impressão de um sincero diálogo livre de qualquer tendencialismo e muito generoso por expor nossas manias, rítmicas ou não; terceiro, por ter possibilitado um infinito prazer de reencontrar minha irmã como parceira criativa, uma relação vem sendo amadurecida desde a infância, que além de comungar de questões muito parecidas, me parece a cada vez, mais importante e diferenciada; por último, reafirmo que a pesquisa com a percussão corporal desperta-me muita curiosidade e motivação para criar relações com os movimentos do meu corpo, suas linguagens, contato com outras pessoas e até aprofundamento na nossa cultura, que não se limita a cidade ou país, mas a cultura humana de movimento e som.

Não tratando de nenhuma técnica específica, a dança contemporânea amplia e possibilita reelaborar o fazer da dança aliada ao imaginário, as individualidades e necessidades de quem se expressa. A partir da atenção aos princípios do movimento e dos eventos, tem possibilitado que cada vez mais consiga interagir linguagens que me auxiliam criar um discurso cênico autônomo, suscetível aos meus próprios fenômenos criativos e mais sensível para perceber os fenômenos da outras pessoas.

Munique Mattos - 4 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Rafaeli Mattos - Relatório Musica e Movimento

O terceiro módulo do Ateliê Coreográfico, Concerto Coreográfico: Parcerias entre música e dança, confesso que foi o módulo mais aguardado por mim, visto que a relação entre música e dança me acompanha há algum tempo. Então, tentarei aqui situar as questões referentes a este estudo, o qual existe há alguns anos, e ao mesmo tempo, descrever a importância que o espaço do projeto teve neste processo.

Durante minha estada no curso de graduação em dança da UFRJ, desenvolvi um enorme gosto pela criação coreográfica. Na universidade, tive a oportunidade de compor trabalhos autorais e apresentar em alguns teatros. Após um período longe de criação própria, percebi que a pesquisa iniciada na graduação não havia se esgotado, apenas tomou novas configurações. Assim, em um segundo momento, no curso de especialização em dança da UFBA/FAV, Estudos Contemporâneos em Dança, desenvolvi um segundo estudo, apenas teórico, a cerca do sapateado americano e sua relação com a dança contemporânea.

O texto abaixo é uma pequena reflexão sobre este estudo feito na especialização, o qual se tornou o primeiro estímulo para a composição apresentada na mostra do Ateliê.

Diante da história dessa arte visual e sonora, é evidente que seu caráter flexível e dinâmico torna-se mestiço por origem. Tendo como traço marcante o improviso, ou seja, o desafio, respeita a individualidade e a criatividade de cada sapateador, permitindo mistura de culturas, estilos e técnicas; fatores responsáveis por sua configuração. Porém, nos musicais parece haver a tentativa de homogeneizar o sapateado em uma técnica ou estilo padrão, essa padronização dos corpos se mostra com mais efetividade nas artes brancas européias. Com sua difusão pelo mundo, essa idéia é ampliada pela reprodução fiel do modelo norte americano.

O sapateado se encontra “preso no tempo?” O sapateado deveria se adaptar ao momento em que está inserido e não permanecer preso ao passado. A questão do que vem a ser a contemporaneidade do tap, é discussão comum entre os sapateadores, especialmente os que possuem uma relação com a dança contemporânea ou cursam alguma graduação em dança; os que têm o habito de pensar a dança. Tal questão sucinta refletir: quais são as intercessões entre a arte contemporânea e o tap dance? O que muitas vezes não é lembrado, é que o sapateado é, também, entretenimento. O que é o sapateado? Por que não tem espaço no mercado da dança atual? Será que sua linguagem é incompreendida? Como se tornar relevante?

Ultimamente, cresce o interesse dos criadores da dança contemporânea pelas danças populares, e no caso do sapateado ocorre, também, o interesse pela música popular, ou seja, de caráter folclórico. A corporeidade brasileira já é um grande diferencial, pois é característica que chama muita atenção fora do país. É importante lembrar que o tap dance é uma manifestação folclórica norte americana. Assim cada traço da cultura que está inserida pode se fazer presente nela.

Porém é inegável que existam semelhanças entre os sapateados das culturas referidas. Alguns sapateados folclóricos brasileiros, assim como o sapateado americano, também possuem em sua estrutura o desafio, a virtuose e a improvisação. Mesmo não sendo o Samba e o Frevo diretamente manifestações onde o sapateado se apresenta, eles sofrem freqüente comparação com essa dança.

Nas danças populares, especialmente as de origem negra, é evidente a relação com a força da gravidade. O “enraizamento” dos pés no chão parece conectar passado, presente e futuro, harmonizando o ritmo da terra com o ritmo do corpo, tornando música e dança uma coisa só. Os pés talvez sejam o foco da cognição e comunicação nas danças populares brasileiras e no sapateado norte americano.

O problema se instaura quando o sapateador é posto em cena. O sapateado americano como brincadeira, não possui um vocabulário específico de movimento. Conhecendo seu corpo e as possibilidades sonoras do sapato na roda, cada sapateador desenvolve seu estilo particular. A tentativa de reprodução de um passo de um sapateador para outro, representa a adaptação dele ao tentar implementar as informações que estão em outro corpo, um processo de assimilação e repetição. Contudo, não há como existir uma repetição fiel já que os corpos são sempre diferentes e sendo assim, ocorre a criação de “novos” movimentos. No palco, a necessidade de uniformizar esta dança, ao se tentar homogeneizar os corpos, compromete sua comunicação.

A dança contemporânea tem como uma de suas características articular linguagens distintas, o que ocorre também com mestiçagem. Porém, a mestiçagem só acontece quando o corpo do bailarino realmente entende os princípios dos códigos das danças propostas. Podemos dizer que há um modo específico do corpo dançar em se tratando do corpo brincante.

Mas onde ficam os limites entre uma dança e outra? Elas perdem suas especificidades? Pensar em preservação genuína neste caso é impossível. As, danças, linguagens de um modo geral se transformam, se misturam borrando elementos uma na outra, criando algo novo, uma diferença. Assim, da relação do sapateado americano com a dança contemporânea surge uma nova “linguagem” cênica, enquanto modo de combinar códigos diferenciados.

É importante ressaltar que segundo a teoria da mestiçagem as identidades são mutáveis, sendo a conexão com a memória através da historicidade dos corpos fator que impossibilita a perda total de alguns códigos. Desta forma, independente da técnica utilizada, o artista contemporâneo preocupa-se em atender as necessidades da obra que propôs conceber, sem pensar necessariamente em formalizar um modo ou uma técnica.

Mas quais seriam os motivos dessa dança? Atualmente inúmeros, porém se tratando de sapateado é inevitável não pensar em música, sendo uma arte visual e sonora existe uma relação intrínseca entre música e dança. Quem move quem? No caso dessa arte, é dificultoso identificar se a música gera o movimento ou se o movimento gera a música, especialmente se partirmos do princípio que a música é movimento e que o movimento possui um ritmo próprio, podendo vir a ser música.

Contudo, o motivo do movimento ou o movimento do motivo, talvez precise ser suficientemente relevante e coerente para deslocar quem aprecia para continuar existindo. Ele tem que ser e estar no espaço, ser e estar com todo seu passado no presente se relacionando com a atualidade e possibilitando novas configurações no futuro. Todo que existe estabelece uma conexão temporal.

É preciso praticar, experimentar, ouvir, dançar, enfim, pensar o sapateado. Não se pode pensar em dançar o sapateado como uma mera repetição de passos, pois isso incorre no velho vício de achar que o corpo é um instrumento. É preciso, sim, provocar a permanência dessa dança entendendo seus códigos e simultaneamente suas transformações. É necessário olhar como arte, que comunica e dialoga, intriga e instiga, ou seja, o corpo quando dança essa dança tem um tipo de pensamento.

No contexto brasileiro, dois coreógrafos parecem bem preocupados com essas questões, são eles Steven Harper e Valéria Pinheiro. A Companhia Steven Harper e Companhia de Brincantes Vatá, além de serem as únicas companhias brasileiras de dança a possuírem como linguagem norteadora o sapateado americano, têm em comum a tentativa de relação dessa arte com a dança contemporânea. Os trabalhos desenvolvidos por Steven Harper e Valéria Pinheiro demonstram um comprometimento com as especificidades da dança que eles propõem investigar. Há um estudo visível na elaboração dessa dança. Suas respectivas maneiras de sapatear são bem peculiares.

Somente cada sapateador pode responder o que é e que discurso quer propor. Na roda de improvisação seu corpo apresenta o tempo, espaço e cultura que está inserido, tornando sua performance sempre nova. Desta forma é inegável que o sapateado é e sempre foi uma expressão contemporânea, pois o padrão é ampliado por cada corpo possibilitando inúmeras configurações dessa arte.


Desta forma, meu trabalho investigativo esteve pautado na questão da necessidade do corpo de preencher o espaço-tempo musical. Minhas composições de início se limitaram ao gênero musical choro, o qual apresenta uma complexa estrutura musical que é apenas apreciativa, ou seja, não possui sua própria dança. Contudo, compreendo que a busca do corpo pela “apreciação” plena da música está na tentativa de uma relação direta, a tentativa de buscar um diálogo interativo. Na própria história da dança a música é uma grande questão, inicialmente é o motivo da dança, posteriormente a dança a tira de cena, por fim, volta como uma mera coadjuvante. Já nas danças populares não existe segregação, música e dança é praticamente um único elemento. Nas danças folclóricas sapateadas, fica evidente essa relação direta, mas o que chama atenção, as danças não sapateadas também são muito métricas.

Considero que o ápice do diálogo entre música e dança seja o tap dance, mais conhecido como sapateado americano. O próprio corpo em movimento produz som, o movimento coreografado produz música. O sapateado americano é por origem uma arte mestiça, relacionando-se com várias linguagens artísticas como o balé clássico, a dança de salão, o hip hop, o cinema, o circo e o teatro. Atualmente é explorada a possibilidade do corpo inteiro do sapateador produzir som, através da percussão corporal e de métodos musicais que buscam o entendimento do corpo. Essa idéia, “produzir som com o corpo”, é tão antiga quando o próprio corpo. Desde sempre povos no mundo todo usaram o corpo para tirar sons.

Tendo essas informações como norteadoras, foi iniciado o desenvolvimento de um segundo estudo de composição coreográfica tendo o tap dance como objeto de investigação. É o tap dance uma arte contemporânea? É possível dialogar o sapateado com a arte contemporânea? Quais são as possibilidades do corpo de produzir música e movimento ao mesmo tempo? Qual a necessidade desse corpo de preencher o espaço tempo musical? Essas foram apenas algumas das questões iniciais.

Os encontros do Ateliê Coreográfico ajudaram muito no amadurecimento das questões levantadas anteriormente, fruto de leituras, observações, experiências. Porém, o projeto abriu espaço para a experimentação efetivamente corporal, o início da construção da obra, projeto engavetado apenas esperando uma oportunidade para ser desenvolvido. Sinto-me extremamente satisfeita com o resultado apresentado, com as parcerias realizadas e com as possibilidades levantadas para uma contínua pesquisa coreográfica. Foi um módulo que me supriu quanto artista, tornando possível aprimorar a dupla vertente existente nesse corpo, mescla de música e dança, me senti também muito útil, pois pude colaborar de forma efetiva com o grupo, promovendo um diálogo de troca de informações com os integrantes e orientadores.

As referências que eu tinha do Ateliê Coreográfico era de um espaço onde o amadurecimento artístico se dava nas orientações, na troca com a diversidade do grupo, no espaço fluido da investigação pessoal onde as afinidades criam parcerias e oportuniza o aparecimento de obras artísticas. Foi exatamente isso que vivi neste módulo e fico na expectativa que no próximo não deixemos morrer esta árvore que foi plantada e que possamos colher os frutos no fim do projeto.

Rafaeli Matos

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Aline Deluna - Relatório Musica e Movimento


Apresentação de pesquisas em processo de criação no dia 03 de julho de 2009

Uma das questões discutidas desde o principio da filosofia é a relação entre o agir e o pensar. Costuma-se supervalorizar o trabalho intelectual em derimento do trabalho maunal, no entanto são estes inseparáveis e responsáveis pela definição da condição humana, pois o sujeito que muito pensa e não age, nada faz, e o que age sem pensar não tem a noção do que fez. Toda a ação é derivada do pensamento, mesmo que este esteja apenas vinculada a intenção que o levou a fazer, todavia, o pensamento por si só não constitui uma ação. Tudo isso me remete a condição do artista enquanto criador. Muitas vezes este se priva da criação por medo de não ser capaz de fazê-lo ou por não encontrara a forma “ideal” de executar sua criação. Nesse bloqueio o artista apenas perde a oportunidade de se arriscar, quando o máximo que pode acontecer é descobrir que a idéia na prática não funciona tão bem quanto o imaginado. Quardar idéias não é ser inteligente, é ser passivo na própria vida.

O terceiro módulo do Ateliê coreografico foi a junção mais clara dos elemenos que vieram sendo trabalhados nos módulos anteriores com o material pessoal de domínio de cada artista. Neste módulo tivemos um espaço maior para a criação livre - que a princípio parece ser o espaço mais desejado pelos artistas, mas que rapidamente os levou a questão mais simples e mais temida por grande parte dos mesmos: “O que eu quero fazer e mostar?”Foi dificíl, para muitos, compreenderem que a criação ou simplesmente uma idéia não nescessariamente antecedem o fazer, e principalmente não o impedem de realizar-se. É impressionante ver como o próprio fazer consegue gerar essas idéias, esses conceitos e inclusive lhe dá novos angulos de visão sobre os mesmos. Somente quando cessam-se os questionamentos e dá-se início a ação, surgem as tão sofridamente procuradas idéias e destas outras, muitas mais vem à luz. Diferentes aspectos de uma coreografia foram trabalhados onde uns se atinham a diferentes tempos ritmicos, outros a diferenças espaciais e outro aos motivos, por exemplo. Muitas das referências trazidas nas aulas de Bartenieff com Marina Martins, Música com José Eduardo Costa Silva, Processo de criação com Renata Diniz, Música Contemporânea com Doriana Mendes, Ballet com Fabiana Valor, foram trabalhadas na interpretação e identificação pessoal de cada integrante do Ateliê e estas puderam ser identificadas pelos mestres presentes na apresentação. Os trabalhos seguiram direções diversas mas todos com uma linguagem informal com o público, que acabou por se estabelecer. Das criações resultantes posso dizer que muitas foram bem sucedidas, outras nem tando, do ponto de vista funcional, e ter essa clara visão é melhor forma de conhecermos nosso trabalho e saber a dedicadição necessária a cada propostas que esta obtenha o resultado desejado. Contudo, a arte se dá no interesse e na identificação humana, e quanto estas ocorrem, não há como dizer que um trabalho não funciona.

No geral foi um período conturbado mas vejo isso de maneira possitiva, pois é necessário que o artista se faça esses questionamentos para que então tenha clara a idéia de aonde e até aonde e por qual motivo faz sua arte, pois é necessário ter um objetivo para que se trasse uma direção, e quanto mais certo este, mais energia é concentrada em seu favor e crescimento. Uma das questões que ainda aperecm atualmente é “o que é dança?” . Creio que neste módulo chegamos a uma conclusão: Não precisamos dessa resposta para fazê-lo. E fizemos. Cada qual com uma linguagem, uma mensagem, um reflexo diferente e obiviamente obtiveram do público respostas diferentes sendo estas, formas de observar o trabalho e sua reações durante os mesmos, seus comentários ou a ausência destes, seu olhares, as formas como se portavam, as formas como respondiam e participavam das propostas. Com um formato bem informal os trabalhos de pesquisa em processo - vistos e comentados durante sua criação por todos os integrantes do ateliê - foram compartilhados com pessoas e amigos, e acredito não ser este o término deste módulo, mas o início do próximo que será composto por artistas maduros que, por fim, deixaram seus “demônios da arte” para trás.

Aline Deluna (integrante da Cia. do Ateliê Coreográfico)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

QUESTÕES DO 2º MÓDULO

Caros integrantes do Ateliê,

Gostaría de começar dando os parabéns a todos pelo empenho e pela atuação em nosso espetáculo. O que mais escuto é que foi "belo, envolvente e mágico". Espero que, como eu, vocês tenham aprendido muito com ele e que, na memória de cada um, ele continue a reverberar positivamente, trazendo novas indagações e fortificando o compromisso com o grupo e com o projeto.

Após uma merecida pausa, sugiro as questões abaixo para sua reflexão. Estas questões devem ser respondidas por todos, como parte do trabalho no Atelie.

1. Em que estágio do projeto voce acha que está e quais as suas expectativas em relação ao seu desenvolvimento pessoal dentro do projeto?

2. Após um espetáculo que incentivou a questão do trabalho conjunto, sem perda de individualidade, mas visando o espaço social do Atelie, como você se sente em relação a esta questão?

3. Quais os fatores que voce acha mais importantes para um trabalho que se propõe a apresentar - um time único. De que forma voce acha que estes fatores influenciaram no sucesso do nosso espetáculo?

4. De que forma voce contribuiu para a formação do time?

Gostaria de explicar a diferença que faço entre time e grupo. É possivel ter um grupo de pessoas trabalhando de forma individual em um mesmo projeto. Um time trabalha em conjunto, entende as relações e a inter-dependência entre todas as ações que se configuram em uma performance, e todos os seus membros trabalham ativamente para um deesempenho que ultrapassa as fronteiras individuais.


Um grande abraço e até breve!
Regina MirandaDiretora Artistica, Atelie Coreografico

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

PROCESSO DE CRIAÇÃO - DIA 6 DE FEVEREIRO

Na aula de hoje, os participantes, orientados pelos integrantes do Ateliê Coreográfico Companhia de Dança, dividiram-se em dois grupos e fizeram experimentações espaciais utilizando-se de duas diferentes escadas da Casa da Glória. A primeira, encontrava-se próxima à piscina da casa. Uma escada toda feita de ferro, que dá acessso à varanda e a vários cômodos diferentes. Encontra-se em um lugar aberto, claro e é possivel visualizar seus degraus por completo. A segunda, encontra-se em uma das entradas e saídas da casa. É toda feita em pedra, tem lodo, um muro branco que a acompanha, tem mais ausencia de luz e não é possível ver todos os seus degraus apenas de um ponto.
Após a experimentação em uma das escadas, os grupos deveriam fazer uma transição e trocar de localização. Uma das discursões que surgiu foi exatamente sobre essa transição. Sendo assim, a pergunta selecionada para este fórum é:

Qual a dificuldade de manter um estado de presença na transição entre os espaços? E o que é ser e o que é estar?



1º Módulo: Espetáculos Itinerantes no Brasil


1. De que maneira o evento "Parada Iluminada", realizado no Rio de Janeiro em Dezembro de 2009 articula os elementos estudados neste módulo?

2. De que forma a sua experiência neste espetáculo itinerante se articula ou pode se articular com o seu trabalho criativo pessoal?

3. O que mais o/a interessou neste módulo? Explique.

Além de responder, por favor comente pelo menos duas respostas de seus colegas. Seu comentário deve expor sua reflexão sobre o assunto e acrescentar teóricamente ao que está sendo estudado. Se possível use fontes teóricas de apoio à sua reflexão. Favor não replicar comentários anteriores.


2º MÓDULO: CARTA DIRETORA REGINA MIRANDA











Queridos professores e participantes do Ateliê,

É com grande prazer que reiniciamos o Ateliê em 2009 na bela Casa da Gloria que, tenho certeza, será inspiradora para a articulação de - Movimento e Arquitetura, nosso tema durante os próximos dois meses. Como a maioria deve saber, esta relação vem norteando minhas próprias criações e pesquisas ha muitos anos, então estou ansiosa em compartilhar experiências e, mais ainda, interessada em orientar e participar dessa nova experiência com todos vocês. Para começar, sugiro a leitura do capítulo dois do meu livro Corpo- Espaço. Os subtítulos são: Taila colocara um exemplar `a disposição para leitura

Já começamos com uma nova geografia e espero que voces aproveitem a escolha desse lugar tão especial e também todas as saidas programadas para outros lugares arquitetonicamente importantes da cidade.

Após quase 20 anos ( e parece que foi ontem!) volto a trabalhar nesse módulo com uma amiga querida, a arquiteta Elizabete Reis, que conheci quando trabalhávamos ambas no MAM e que se tornou uma grande companheira na construção da Divina Comédia, inclusive atuando, para seu proprio espanto. Como é de seu feitio generoso, Bete já começa nos dando um primeiro presente: um convite/mapa para começarmos a ativar nossas relações corpo-espaciais.

Consegui também (FINALMENTE!!) trazer Marina Salomon para a experiência corpo-a-corpo do Ateliê. Volto eu também a poder, além de idealizar e coordenar o Ateliê, a poder dar algumas aulas. Isso é uma felicidade para mim. Não estarmos à frente do Centro Coreográfico abre, para Marina e eu, maior espaço para nossa vida artística. Estamos ambas felizes pelo trabalho realizado e pelo aprendizado de estar a serviço da comunidade de dança e entusiasmadas por podermos estar agora mais próximas do que adoramos fazer.

Os outros orientadores desse módulo já são mais conhecidos de vocês e agradeço de coração pelo empenho com que vêm colaborando com o projeto e pela versatilidade com que adaptam seu saber às várias facetas que abordamos. Alguns companheiros/as super queridos não estão conosco nesse momento do projeto, mas aparecerão de vez em quando e certamente voltarão em outros módulos.

Vamos começar o ano com o belo horizonte da Baia de Guanabara à nossa frente, a Igreja da Gloria acima, a ladeira e as casas antigas ao nosso redor, imersos todos nessas relações geo-temporais.

Bom proveito e felicidades em 2009!

Regina Miranda
Idealizadora e Coordenadora Artística
Ateliê Coreográfico

Diretora
Centro Laban - Rio